Um rio para ficar na história

Nova animação de Saldanha chegará a mil salas no dia 8, uma semana antes da estreia mundial

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

Nove milhões de espectadores somente no Brasil com A Era do Gelo 3. Carlos Saldanha conversa sobre animação, revela suas preferências - ele gosta muito de Toy Story 3, mas Como Treinar o Seu Dragão fez seu coração bater mais forte - e revela como foi criar o Rio de seu novo filme, com direito a voo de asa-delta ao redor do Cristo Redentor e a desfile de escolas de samba na Sapucaí. A Fox, que traz jornalistas de todo o mundo para o tapete vermelho na terça-feira, promete um megalançamento. Serão mil (1.000!) salas, um arrasa quarteirão que promete criar um antes e um depois na história das estreias nos cinemas brasileiros.

Muita expectativa com relação ao lançamento de Rio?

Muita, muita. Meu papel é fazer o filme e depois o estúdio é que o vende. Mas a Fox, que me deu carta branca e um dinheirão para fazer o filme como eu queria, está planejando um superlançamento. A ideia é vender o Brasil para o mundo, e num momento em que as atenções se voltam para o País, com (Barack) Obama, a Copa do Mundo, a Olimpíada. O filme não foi feito em associação com esses eventos, mas digamos que o momento é favorável para a história que eu quero contar. Só não me peça para contabilizar quantos espectadores Rio fará. Espero que faça muitos, mas que o sucesso seja a expressão do amor do público pelo filme. É um filme que eu amo, gostaria que as pessoas amassem também.

A tecnologia do 3-D está dominada?

Rio apresentava problemas específicos. Posto que a cidade é personagem fundamental, tivemos de recriar o Rio em desenho. Foi um processo complicado e difícil, mas nada que a tecnologia não consiga resolver. Os grandes animadores, de Walt Disney a Hayao Myiazaki e John Lasseter, nos ensinam que a técnica pode ser conquistada e o importante é a história que queremos contar. A de Rio fala de superação. Posso ser eu tentando me superar, é a minha arara-azul, mas será também todo espectador que embarcar nessa viagem.

O filme ficou nos conformes, como você queria?

É difícil responder. A gente sempre sonha com alguma coisa e o sonho nos permite abraçar o infinito. Muita coisa saiu melhor do que imaginava, mas nada foi fácil. Foi o resultado de muito esforço, de uma equipe que pegou junto e acreditou no projeto, na história e nos personagens.

Você foi muito esperto cedendo um trecho do filme - o voo de asa-delta -, que virou a vinheta do Festival do Rio de 2010. Aquilo era de dar água na boca. Como nasceu o projeto de Rio?

É, aquele trecho é muito bonito e representativo dos problemas de perspectiva que tivemos de enfrentar. Mas a história inicial não era de uma arara. O protagonista de Rio nasceu como um pinguim, trazido pelas correntes marítimas para as praias do Rio de Janeiro e, aqui, tomava um choque cultural, descobrindo um mundo de um colorido muito rico e de uma diversidade muito grande. A ideia sempre foi fazer de Rio uma história de superação. Mas tive de desistir cedo do pinguim. Quando comecei a tentar vender meu filme em Hollywood, havia várias produções em andamento sobre pinguins. Rio corria o risco de ser apenas mais uma. Transformei meu pinguim num macho de arara, o Blue, que vem para o Brasil. Ele descobre o País, o amor, supera seus medos e vive uma história de superação. Inicialmente, Blue não consegue voar. Suas primeiras tentativas dão errado e seu primeiro voo é o de asa-delta. É uma história bem simples, mas que fomos enriquecendo para que ficasse complexa. Com a complexidade vieram os desafios técnicos. Ou seja, o desafio era uma consequência da história e dos personagens, não o inverso. Não formatamos uma história para o tipo de show de efeitos que gostaríamos de criar para mostrar do que somos capazes na Blue Sky (NR - a empresa do diretor). Foi exatamente o contrário. A história nos empurrou para a experimentação.

O que foi mais difícil?

Tivemos de criar uma topografia da cidade. Para isso, os bairros do Rio foram aerofotografados e filmados. Selecionamos os pontos turísticos principais, definidores da cidade, e a partir daí criamos o nosso Rio animado, com direito a praias e até a desfile de escolas de samba na Sapucaí.

Quando entrevistei John Lasseter por Procurando Nemo, ele disse que não havia coisa mais difícil do que criar a água, o fundo do mar. As plumas também devem ter sido bem difíceis, não?

E são, mas facilitamos nossa tarefa fazendo uma adaptação dos pelos de A Era do Gelo. Como já dispúnhamos daquela tecnologia, a coisa ficou um pouco mais fácil, mas tenho a impressão de que nunca, na história da animação, foram vistas plumas tão fofas como as nossas. O efeito do vento, da água, da luz, tudo é transparente em Rio. Ficou muito bacana.

Sei que você é fã de John Lasseter, da Pixar, e de Hayao Myiazaki. Mas quero saber de você, agora, qual sua animação favorita em 2010? Foi Toy Story 3, que concorreu ao Oscar principal e recebeu o da categoria?

Tenho grande respeito e admiração por Lasseter e Myiazaki e pelo que cada um deles trouxe para a moderna animação. Myiazaki às vezes é um pouco louco demais para o meu gosto. Lasseter nunca é menos que ótimo. Tenho uma dívida com Walt Disney, com as velhas animações dele, que são as minhas favoritas, Dumbo, Bambi. Mas a melhor do ano passado não foi Toy Story 3. Nenhuma me encantou mais do que Como Treinar o Seu Dragão. Foi uma combinação perfeita de técnica e emoção. E o dragãozinho era um belíssimo personagem.

QUEM É

CARLOS SALDANHA

DIRETOR DE ANIMAÇÃO

Nascido em 1965, o carioca Carlos Saldanha teve um começo difícil nos EUA, mas hoje é reconhecido como um dos maiores diretores de animações do mundo. Codiretor de A Era do Gelo e Robôs, ele dirigiu A Era 2 e 3, Rio e produz A Era do Gelo 4, em processo de finalização.

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