Um retrato

No conto a seguir, do carioca Sérgio Sant'Anna, uma fotografia de infância dá a um professor de 53 anos o verdadeiro e insuperável sentido da orfandade

, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

No retrato, minha mãe se debruça e abre os braços para mim, que corro em sua direção. A câmara, manejada por meu pai, me pega meio de costas, meio de perfil e minha mãe quase frontalmente. Seu sorriso é radiante em seu rosto de traços delicados, nos lábios um batom discreto e os cabelos puxados para trás. Mas era outra a sua foto que ocupava um lugar no quarto de meu pai, antes de ele casar-se outra vez, assim como era o outro o meu retrato no hall em que se abriam as portas dos três quartos.

O retrato em que corro para minha mãe fora dependurado no escritório de meu pai, nos fundos da casa. Pensei mais tarde que, com essa localização da foto, meu pai a deixava acessível para mim, sem que eu tivesse de vê-la o tempo todo, como que me poupando de uma falta sempre renovada. E o fato de meu pai conservá-la num espaço tão seu mostrava o seu grande apego àquele instantâneo feliz.

O escritório de meu pai era um lugar que me fascinava, com sua mesa, instrumentos de trabalho e as estantes com os livros de direito e literatura, em três línguas. A partir de determinada fase da adolescência comecei a admirar o gosto de meu pai pela poesia e lembro-me de ele ter me dito, quando comecei a frequentar o gênero, que só os bons poetas conseguiam que seus versos descortinassem os sentidos possíveis das palavras. Quando lhe perguntei, um dia, se chegara a escrever poesia, ele enrubesceu e disse que seus poemas não valiam nada e ele jogara tudo fora. Exatamente o que veio a acontecer comigo, embora eu nunca tenha deixado de saber que em algum território estão as palavras que valeria a pena eu escrever.

Eu gostava do cheiro de meu pai, até dos cigarros que fumava, das suas roupas no armário. Mas o cheiro de minha mãe e de seus vestidos, que logo desapareceram do armário - e isso bem antes de Mariana - eu devia imaginar inteiramente, e, no dia daquele retrato no jardim, imagino-a com um cheiro de sabonete feminino e algum perfume sutil. E também um cheiro seu, muito bom.

Todas as crianças amam suas mães, mas a minha morrera quando eu tinha cinco anos, de modo que sua memória tornou-se em mim evanescente, e foi minha mãe naquele retrato, o último dela, que se elegeu por si própria para guardar-se em minha mente.

Eu, como todos os vivos, continuei me transformando e meus sentimentos pela mulher do retrato, os modos de evocá-la, podiam variar de acordo com o tempo transcorrido ou outras circunstâncias.

A morte de minha mãe, de pneumonia, aos vinte e nove anos, só pode ter sido uma verdadeira devastação na família, porém não tenho quase nenhuma lembrança de sua falta naquele momento, pois ela morreu no hospital e, como disseram que viajara, simplesmente não voltou. Mas me lembro bem dos cuidados dos parentes e de meu pai comigo, mas a palavra morte, ao que me recorde, não era pronunciada.

Depois, as referências à minha mãe começaram a se fazer num tempo passado, e esse foi um modo de a morte ser introduzida mais suavemente, e não sei se eu percebia um brilho nos olhos de meu pai, nesses momentos, como imagino agora. Imagino, também, que choros meus sem motivos precisos podiam ter como razão a ausência de minha mãe.

Lembro-me de que, lá pelos sete, oito anos, eu notava e achava muito bonito o fato de se referirem à minha mãe pelo seu nome: Francisca. "Francisca gostava muito de que os pássaros viessem pousar em nossas plantas." "Francisca gostava tanto do cheiro de chuva." Uma tia: "Vocês não acham que Henrique tem a boca de Francisca?" Mas o fato era que todos achavam que eu era o meu pai escrito. Se fosse mais parecido com Francisca, não sei como seriam as minhas reações diante do retrato ou a evocação deste. Talvez as mesmas, talvez não.

Mariana foi introduzida na casa aos poucos, mas já antes que eu a conhecesse, com doze anos, ouvia pronunciarem seu nome de um modo especial. Meu pai se tornava um homem mais alegre e comunicativo, se ausentava em várias noites.

Ao me ser apresentada, Mariana me estendeu a mão e disse: "Como vai, Henrique?" Gostei que fosse assim, sem forçação de barra, pois não fiquei encabulado. E foi só algum tempo depois, quando se casou com meu pai e veio morar conosco, que ela começou a me dar beijos nos rosto e leves abraços. Essa leveza no tocar me dava uma noção maior de seu corpo, e eu estava na idade em que os hormônios irrompiam. Mariana era jovem e bonita e eu não podia ficar indiferente àquela presença feminina, o cheiro excitante de suas roupas no armário deles, que vez por outra eu abri. Várias vezes surpreendia meu pai passeando seus olhos de mim para ela e dela para mim, e tenho certeza - não sei se na época reconhecia isso - de que ele não apenas queria saber se nossas relações eram cordiais, como intuía o que se passava em meu corpo.

Mariana era uma mulher afável e tornou-se minha amiga, não falava comigo de cima para baixo e ouvia com atenção meus comentários sobre o colégio, os amigos e amigas, futebol, música. E às vezes ela mencionava Francisca com a maior naturalidade. "Acho que Francisca gostaria de ver como o jardim continua bem cuidado." A decoração da casa ia mudando, aos poucos, para um gosto mais dela, como exceção de meu quarto de adolescente e do escritório.

A gravidez de Mariana, de Paulo, misturada a meus primeiros namoricos, pôs fim a qualquer ardor que eu pudesse sentir por ela. Não vou esmiuçar um possível ciúme com o nascimento do irmão. E Paulo acabou por conquistar-me, quando começou a sorrir para mim, vir para os meus braços e a beliscar-me o rosto com toda a sua inocência.

Às vezes me pergunto como seria se Francisca não fosse mãe só minha, mas aí também seria outra mulher, vivendo num outro tempo, que é difícil imaginar.

O gosto pelos livros e uma certa introspecção me tornavam um pouco diferente dos amigos de escola e da vizinhança, mas não a ponto de não jogar bola, entrar nas brincadeiras, conversar sobre sexo, meter-me em uma ou outra briga, ir a festas. Mas não me lembro de ter conversado sobre minhas leituras de poesia, a não ser quando já estava na faculdade.

Um pouco diferente dos amigos, sim, mas sempre parecido com o meu pai, que gostava de conversar comigo, de ser ouvido por mim, e eu ouvia. Certa vez, no escritório: "Francisca era uma mulher de muita vida, boa de se viver com ela. Quer dizer, Mariana também, mas não se devem comparar pessoas, não é mesmo?"

Acho que eu não disse nada, só concordei com a cabeça.

Outra vez, ele me abraçou e disse, também no escritório:

- Ah, o filho de Francisca.

Francisca, que permanecia a mesma no retrato, enquanto todos nós mudávamos.

O fato de eu ser criança, quando minha mãe morreu, não impediu que, mais de uma vez, eu me visse como o jovem que escrevia poesias - sempre rasgando-as, insatisfeito - sendo recebido por Francisca em seus braços. Sentia então o seu cheiro tão bom e nos beijávamos levemente nos lábios. Ah, o gosto de Francisca, o seu hálito. E creio que Francisca foi o tema obscuro e oculto de algumas dessas tentativas de poesia.

Também me vi, depois de uma decepção amorosa, sentado com Francisca num sofá e encostando a face em seu peito, sentindo o contorno e o volume bem proporcionado dos seus seios, e ela afagava-me os cabelos, enquanto eu acariciava os seus braços.

Mas me vi, ainda, abrindo os braços para que Francisca, tão jovem como no retrato, se aninhasse em meu peito - o peito de um homem de mais de quarenta anos - como se ela pedisse: "Ah, me proteja, Henrique, quero viver."

Já Francisca mais velha nunca vejo, nem quero ver, pois destruiria uma preciosidade em mim. Por ocasião da morte de meu avô materno, perguntaram a mim e a meu pai se queríamos assistir à exumação dos ossos de Francisca. Nem eu nem ele quisemos, sem comentarmos um com o outro por quê, e lembro-me de ter dito a alguns parentes que, quando chegasse a minha vez, queria ser cremado.

A morte de meu pai foi uma morte anunciada, pois um câncer no pulmão se alastrou por outros órgãos. A partir de certa fase da doença, nosso papel maior foi aliviar seus sofrimentos e providenciar para que ele morresse em casa. Ao ver meu pai definhando, eu que era tão parecido com ele, senti que algo em mim também se desagregava, apesar da sensação, também, de que alguma coisa de meu pai continuava em mim.

Esta não pretende ser uma crônica completa de minha vida pessoal e familiar, mas um retrato meu, nosso, ligado àquele de Francisca comigo e escrito com o apego à brevidade da poesia, que eu e meu pai compartilhávamos, e por isso mesmo não escrevíamos. Mas foi esse gosto pela literatura que acabou por me levar ao curso e ensino de letras.

Para que não pareça, erroneamente, viver no ar ou um misantropo, devo dizer que estou num segundo casamento, isso para mencionar apenas as relações formalizadas. E tenho de Vânia, minha primeira mulher, uma filha com quem sempre me encantei. Meu pai me disse um dia que Luísa, essa filha, tinha nos olhos e no sorriso um quê de Francisca, levando-me a meditar sobre os mistérios da natureza, que fixava certos traços de Francisca em Luísa, como se estes não passassem por mim.

Contemplando as feições de meu pai no caixão, parecia inacreditável, mesmo tão consumido pela doença, que ele não fosse mais mover-se ou falar. Minhas lágrimas foram discretas no velório e no enterro, como se eu, o filho mais velho, aos cinquenta e três anos, devesse proceder assim. Com a morte de meu pai, tornava-se mais nítida a sensação que eu já vinha tendo de ser levado ao primeiro lugar da fila. Ao ver o caixão baixado à sepultura, decidi que não adiaria por mais tempo as providências para garantir a cremação do meu corpo. Por um sentimento não racional, penso que assim estarei misturado ao éter e não terrivelmente solitário sob a terra, sendo devorado pelos vermes.

Mariana, Paulo e eu examinamos os papéis e demais pertences de meu pai em seu escritório caseiro, e eles me disseram que podia levar o que quisesse. E que ali deveriam estar tantos livros de que eu gostava. Era verdade, mas eu disse que depois pensaria melhor nisso. Afinal, Paulo seguia a carreira de advogado, e como Mariana continuasse a habitar aquela casa, eu sentia pena de desarrumar aquele ambiente tão identificado com o meu pai.

Mas quanto àquele retrato não havia dúvidas. Mariana retirou-o da parede e estendeu-o para mim:

- Você há de querer ficar com ele, não?

- Sim, claro.

Em meu apartamento, preferi guardá-lo numa gaveta de meu escritório, por um certo pudor de olhares alheios. Agora, sim, eu sentia o peso de uma orfandade completa e, na visão daquele retrato, me transportava ao tempo de criança e minha mãe estendia os braços para pegar-me.

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