Um retrato de Shostakovich que soa livre de maniqueísmos

As biografias musicais matam a curiosidade do leitor. Dão sentido, emolduram, enquadram e levam o leitor a "entender" melhor a relação do artista com sua obra. Nas últimas décadas têm feito ainda mais sucesso por causa da erosão, ou colapso, na expressão de Richard Sennett, da tradicional separação entre vida pública e vida privada. Hoje a "esfera pública" é invadida pelo exibicionismo gratuito. Nem é preciso fazer algo meritório para merecer biografia. Qualquer um tem auditório planetário para se despir física, mental e emocionalmente na web. E os loucos-pela-vida-privada de seus ídolos e/ou semelhantes anônimos contam-se aos milhões.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL), ENTRE OUTRAS OBRAS, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h09

Mas será que elas contam tudo mesmo? Desnudam de fato o biografado? Mesmo nos domínios mais especializados, a "ilusão biográfica" engana o incauto leitor, levando-o a pensar que, de fato, o biógrafo revela os menores detalhes da vida do seu ídolo real e o traz para perto de si. Proporciona a tão desejada (e enganosa) sensação de intimidade com o objeto de sua paixão. O terreiro da biografia musical clássica é ainda mais movediço. O próprio caráter semanticamente vago da música, sobretudo a instrumental, leva o biógrafo a tentar estabelecer vínculos mais claros com a história de vida do compositor para "construir o significado musical", segundo Jolanta Pekacz, em ótimo artigo no livro Musical Biographies - Towards New Paradigms (Ed. Ashgate, 2006): "O interesse na biografia potencializa-se por causa da busca pela 'autenticidade' e pela pessoa 'real' que caracteriza a sociedade ocidental hoje."

Uma das mais interessantes e recentes "biografias musicais", Music for Silenced Voices - Shostakovich and His Fifteen Quartets, de Wendy Lesser, mostra como quebrar esta perversa síndrome. Ou seja, presta atenção à vida, mas não se perde em paralelos rasteiros que fizeram a má reputação das biografias musicais. Wendy, 59 anos, tem nove livros publicados e é editora da revista literária The Threepenny Review. Não é musicóloga, faz questão de declarar de saída. "Quando nós, não-músicos, ouvimos música, respondemos segundo nosso padrão lógico e histórico, mas também com nossas emoções e imaginações. Colocar isso em palavras não é tarefa fácil." Não tem receio de confessar que, ao falar sobre os quartetos de cordas, gênero dos mais descarnados no reino da música instrumental, recorreu às vezes "às linguagens da literatura e da crítica de arte, porque ambas têm tradição mais consistente de respostas impressionistas do que a da crítica musical acadêmica".

Para os especialistas, o livro pode parecer pouco rigoroso. Pode ser, quando comparado a teses acadêmicas. Em compensação, ela imprime um ritmo vertiginoso a cada capítulo, tem muita qualidade de escrita e conta a história de cada quarteto como se fosse um conto. Dá ares de ficção bem feita às circunstâncias de composição, sem esquecer análises musicais bastante razoáveis de cada um deles. Mas, neste livro, o que menos importa é a análise puramente técnica. Wendy Lesser quer - e consegue, com louvor - construir a imagem mais próxima possível da realidade do compositor russo que nasceu em 1906 e viveu praticamente toda a sua vida adulta sob o regime soviético, até a morte, em 1975.

Não é, decididamente, tarefa fácil. Shostakovich é o músico que mais sofreu da síndrome dos extremos: os livros que examinam sua vida e obra são maniqueístas. Os de direita o consideram um sagaz "dissidente" enrustido, que contrabandeou na sua música tudo o que não podia dizer abertamente sobre os horrores do stalinismo. Os de esquerda o apresentam como garoto-propaganda convicto do regime. Arrisco dizer que Wendy Lesser consegue o prodígio de escrever sobre ele sem maniqueísmos.

A primeira frase do livro é antológica: "É difícil dizer se ele teve sorte ou foi profundamente azarado." Seguem-se pistas de como ela conduz sua investigação. "Provavelmente nem ele mesmo conseguiria se decidir entre uma e outra condição. Agia dubiamente e sempre ficou dividido tanto em sua atuação pública como na definição de seu próprio caráter." Bate pesado, apesar do seu imenso carinho com o compositor: "Era um covarde assumido que às vezes demonstrava grande coragem." As contradições contam-se às dezenas. Leal com os amigos, desonesto com seus próprios princípios. Tinha enorme respeito pelas palavras, mas assinou várias vezes documentos que jamais leu. Em suma, "um modernista que desprezava oficialmente o modernismo". Com relação à União Soviética, amava-a e ao mesmo tempo a odiava. Ora se beneficiava do regime, ora era sua vítima preferencial. "Shostakovich era uma pessoa recatada que viveu sua existência numa plataforma pública. Escreveu música que agradava ao grande público, e também música para pouquíssimos: possivelmente, quem sabe, para si mesmo."

A vida, diz Lesser, é uma cortina de fumaça entre você e a arte: "Você é atraído pela vida porque gosta da arte, e imagina que saber mais sobre a vida vai te levar para mais perto da arte - mas, na maior parte das vezes, a vida é uma cortina de fumaça entre você e a arte. Você pinça pistas e detalhes, procurando um padrão que explique o todo, esquecendo que em grande parte a vida (e a arte) dependem de lances do acaso." Jamais reencontraremos os impulsos originais que levaram à criação da obra de arte; só se pode tentar compreender os resultados na medida em que eles afloram. Mas com a música, que é quase tão mutável e incorpórea quanto a água, poetiza Lesser, é particularmente tênue a compreensão possível desses resultados.

A chave de sua empreitada é respeitar nosso compreensível desejo de ligar o ser humano que viveu no passado à música que ainda vive hoje. "Parece que há uma voz humana por trás dela - existe uma voz humana por trás dela; precisamos é ouvi-la de modo adequado. Para mim, e acredito que para muitos outros ouvintes, a própria voz de Shostakovich é mais claramente audível em seus 15 quartetos de cordas."

O argumento central é que "ninguém, na cúpula da hierarquia cultural da URSS, prestou muita atenção ao que ele estava fazendo na música de escala menor, aquela que trafega abaixo da linha do radar, que é a música de câmara".

Nessa altura, Wendy Lesser endossa as palavras da viúva do compositor, que qualifica os quartetos como uma espécie de "diário" registrando "a história de sua alma", e completa que eles "oferecem um acesso único à vida interior do compositor".

É verdade. Eles são admiravelmente puros e consistentemente atraentes. Avaliados individualmente, cada um deles representa contribuição importante ao universo da literatura de quartetos de cordas; avaliados em conjunto, os 15 constituem um dos monumentos da música do século 20.

Shostakovich compôs o primeiro em 1938, após dois anos de hibernação fazendo música para cinema, que também circulava abaixo da linha de radar do regime. Dos 15, o mais famoso é o n.º 8, de 1960. É o único tradicionalmente explicado como aspecto de sua autobiografia musical. Ele colocou a dedicatória "In Memoriam - às vítimas do fascismo e da guerra". O quarteto, alerta Lesser, foi vítima de "reducionismo mal praticado da obra à vida". Shostakovich contribuiu para isso ao escrever em carta ao amigo Isaak Glikman que era "um memorial para mim mesmo".

"Parte do problema", diz Lesser, "envolve uma combinação de fatores que não pode ser diretamente atribuída a ele." Lembra o que chama de "circunstâncias românticas" da composição: ele o escreveu em três dias, após ser pressionado, contra sua vontade, a assinar a ficha de filiado do Partido Comunista. Na mesma carta, enfatiza: "Fiquei pensando, se algum dia eu morrer, ninguém precisará compor uma obra em minha memória, então a escrevi eu mesmo. Na página de rosto, deveria haver a seguinte dedicatória: 'À memória do compositor deste quarteto.'" Há brincadeira, ironia, amargor, mas ainda assim basicamente brincadeira. Só que a posteridade entendeu estas palavras apenas no registro trágico. "É fácil", raciocina Lesser, "confundir a autobiografia da recepção com a autobiografia da criação, imaginar que o compositor (ou escritor, ou pintor) simplesmente compôs com o mesmo sentimento que temos hoje quando ouvimos. A obra de arte não funciona assim, mas parte de sua beleza e poder de sedução é nos fazer acreditar que é deste jeito que as coisas andam no mundo da arte."

Vários comentadores negaram a validade da dedicatória e, num raciocínio ideologicamente tortuoso, disseram que Shostakovich se punha entre as vítimas do fascismo, e incluía Stalin e o partido como algozes. "Ora", diz Lesser, "ele só repetiu um estratagema que usou desde sua Sinfonia n.º 5: o de colocar algo que passasse pela censura. Portanto, a dedicatória não deveria ser levada a sério." Lesser perguntou ao maestro alemão Kurt Sanderling, amigo de Shostakovich, se a dedicatória era para valer. "Ridículo", riu. "Então, o que as citações e alusões a suas obras de juventude e às iniciais de seu nome (ele usa as notas DSCH que na notação alemã correspondem a ré, mi bemol, dó e si bequadro) fazem em um quarteto dedicado às vítimas do fascismo?"

A tese de Lesser é que no quarteto n.º 8 Shostakovich fez coincidir o significado público com as mensagens privadas, o pessoal e o político. Philip Setzer, violinista do Emerson Quartet consultado por ela, sugere que "o fato de usar suas próprias iniciais não era apenas um comentário pessoal, mas um jeito de dizer 'somos nós, é a Rússia - é a tragédia da Rússia também'".

O xeque-mate vem na página 155, quando Lesser conclui acertadamente que "se você não conhece as citações e alusões, o quarteto n.º 8 ainda assim funciona, pode funcionar possivelmente até melhor, porque você não vai estar limitado pelo excesso de conhecimento ou expectativa, simplesmente responderá à música pelo que ela é". Ela termina de modo magistral, provando que Shostakovich está vivo não por causa das milhares de controvérsias político-ideológicas e explicações criptográficas, mas pela qualidade de sua música. "Para os veteranos desta peça, gente como os músicos e musicólogos, seria saudável tentar ouvi-la de vez em quando com ouvidos que aspiram à ignorância."

MUSIC FOR SILENCED VOICES - SHOSTAKOVICH AND

HIS FIFTEEN QUARTETS

Autor: Wendy Lesser

Editora: Yale University Press

(368 págs., R$ 46,10.

Ebook Kindle US$ 15,40)

Às vezes, ele escrevia peças para o grande público; outras, para poucos, iniciados; talvez apenas para si mesmo

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