Um retrato de artista livre e leve para voar

Ninguém diga que não há cinema em A Luz do Tom. Nelson começa imagens de Tom Jobim de um antigo programa gravado na TV Manchete. Apenas trechos, e malconservados de uma VHS doméstica. Isso porque a emissora, já mal das pernas, gravou qualquer coisa por cima do programa e tudo se perdeu. As imagens foram garimpadas por Nelson da gravação doméstica do jornalista Chico Pinheiro, que as havia conservado.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2013 | 02h08

A estas primeiras impressões nostálgicas, segue-se uma panorâmica aérea de praias desertas, evocando a bucólica Ipanema dos anos 30 e 40, quando não havia edifícios e pouca gente ia à praia. Foram tomadas em Florianópolis. Registro aéreo, deslumbrante, "do ponto de vista do urubu", a ave que mais fascinava Tom por causa do seu voo majestoso. Muita música aqui também, mas desta vez entremeada por depoimentos. Da irmã, Helena Jobim, e das ex-mulheres Thereza Hermanny e Ana Lontra.

De Helena, as recordações de infância e juventude. Do garotão da praia, que se descobre pianista e músico. Por intermédio de Thereza, o filme evoca essa primeira fase de criação de Tom, a mais poderosa, talvez. Ela conta a história do casamento, de como um insinuante e jovem Tom Jobim, ainda mais esportista do que músico, a abordou numa praia e como foi difícil levar adiante o namoro diante de um pai conservador como o dela. Casaram e foram morar na casa da família, sempre cheia de gente e de parentes. Tom, em início de carreira, não tinha dinheiro para alugar casa própria. Por isso, quando já famoso, ele dizia, sempre gozador, que precisava ganhar um dinheirinho para pagar o aluguel. Sabia do que estava falando.

O depoimento de Thereza é fluente e interessante. Sereno, também. Fala muito do lado pessoal e esclarece o modo de criação de Tom. De como ele por vezes se esquecia de uma linha melódica surgida e apelava para a memória da esposa. Ela explica que, para ele, melodia e harmonia em geral surgiam juntas. E também desapareciam da mesma forma. Como a memória dela era mais para a melodia conseguia ajudá-lo a se lembrar. Conta também que brigava muito com alguns parceiros, como Newton Mendonça, morto prematuramente. "Mas como o resultado era muito bom, compensava." Entre outras joias, os dois fizeram juntos Desafinado e Samba de Uma Nota Só. É pouco?

Sem ter o encanto do filme anterior, A Luz do Tom funciona como um complemento informativo ao primeiro, totalmente sensorial e emotivo. A verdade é que as três mulheres concorrem para formar o retrato multifacetado de Tom. De Helena, vem a infância e os anos de formação. De Thereza, os primeiros anos como músico, o estudo árduo, e o sucesso repentino. E de Ana, o Tom da maturidade, e do contato aprofundado com a natureza.

Escapando à rotina do documentário de depoimentos, Nelson trabalha visualmente com o universo imagético de Tom Jobim. São presenças constantes na paisagem as praias, o mar, a mata, as árvores, o voo do urubu - o pássaro soberano quando no céu e desgracioso em terra. Feito para voar. Nelson conta uma história deliciosa a esse respeito. Vários cineastas tentavam fazer um documentário sobre Tom Jobim, depois que ele se tornou uma unanimidade nacional. A cada um que o procurava, Tom perguntava: "Mas você sabe filmar um urubu no voo?". Senão, nada de filme, ria o maestro.

Nelson aprendeu a lição e pegou o urubu em pleno voo. Concebeu um filme quase de um ponto de vista aéreo, de pássaro livre. Daí que a presença das aves não ser apenas referência plástica ao universo do músico, mas um conceito do filme. A presença constante da água, sob a forma de regatos, fontes e o ruído tranquilizador que entram como componentes da trilha sonora. A Luz do Tom é um filme muito tátil em sua concepção fotográfica, dirigida por Maritza Caneca, mas incorpora os sons da natureza junto com a música em seu desenho de linguagem cinematográfica. Com sua música, Tom sentia-se livre para voar.

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