Um retrato da fotografia nacional no século 19

Ao contrário do que se poderia imaginar, a história da fotografia brasileira não é feita apenas de nomes ilustres como Ferrez, Florence, Malta e Pastore. Evidentemente existem nesse nosso passado fotográfico, que nas últimas décadas foi sendo pouco a pouco levado a sério pelos pesquisadores e apresentado ao grande público, umas duas dezenas de mestres, que desenvolveram pesquisas mais coerentes, de maior significado histórico, geográfico ou artístico. Mas a maioria dos daguerreotipistas e, posteriormente, "photógrafos" que atuaram no País no século passado ainda são até hoje ilustres desconhecidos, que transitaram pelos campos e cidades do interior em lombo de burro, anunciando seus serviços em jornais locais.A partir de amanhã, esses desbravadores - muitas vezes europeus que chegavam ao Novo Mundo com a esperança de amealhar alguma fortuna e retornavam alguns anos depois à terra natal - estarão se tornando um pouco menos anônimos com a publicação do Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. A obra, que será lançada amanhã à noite no Instituto Moreira Salles (que edita o livro), é fruto de décadas de pesquisas acerca da história da fotografia no Brasil, feitas por Boris Kossoy, um dos nossos maiores especialistas no assunto, e reúne em cerca de 900 verbetes informações sobre fotógrafos e casas de fotografia que ajudaram a registrar a imagem que nos foi legada do Brasil do século 19. "Foram eles que construíram a memória do País e jamais foram mencionados pela historiografia", afirma Kossoy, que inicialmente apresentou esse trabalho como tese de livre-docência na Escola de Comunicações e Artes da USP.Autor de outros dez livros sobre a fotografia brasileira, dentre eles a célebre pesquisa sobre Hercules Florence (1804-1879), que comprova o pioneirismo desse francês que, sete anos antes de a Academia de Ciências de Paris anunciar a descoberta de Daguerre, já imprimia diplomas e rótulos de farmácia por meio da ação da luz solar sobre papéis sensibilizados com sais de prata e cloreto de ouro. As experiências desenvolvidas por ele na Vila de São Carlos (atual Campinas) marcam o ponto inicial do dicionário, que procura retraçar o panorama fotográfico brasileiro de 1833 a 1910 (esse avanço de uma década pelo século 20 deve-se ao fato de que muitos fotógrafos dos oitocentos continuaram trabalhando nesse período e encerrar a pesquisa com o século seria, segundo Kossoy, algo um tanto abrupto).As primeiras pesquisas de Kossoy acerca da história da fotografia no Brasil datam da década de 1970 e desde então ele vem tomando notas, catalogando referências. Mas só quando começou a informatizar esse acervo, há dez anos, ele se deu conta da dimensão do trabalho e de que seria possível dar uma cara de dicionário a esse vasto material, baseado em intensa pesquisa em acervos públicos e particulares. O pesquisador afirma ainda que contou com a ajuda imprescindível de colaboradores que o auxiliaram a reunir informações em acervos e jornais de todo o território nacional.Quem está acostumado com as belas - e às vezes pouco informativas - publicações de fotografia que assolam o mercado editorial brasileiro se surpreenderá com o aspecto parcimonioso da obra. Não se trata de um livro de arte. As reproduções têm dimensões pequenas e a prioridade é dada ao conteúdo dos verbetes. O que não quer dizer que não encontremos prazer folheando o livro e descobrindo belas imagens, como a paisagem de Paquetá retratada por Verger ou as chocantes imagens da seca feitas por Joaquim Antonio Correia.O foco central, no entanto, é a riqueza de informações que esse acervo organizado pode fornecer a pesquisadores de várias áreas. Numa longa introdução, Kossoy dá algumas possibilidades de interpretação que por si só já constituem um interessante texto de interpretação sobre a história social e econômica brasileira do século 19 a partir da análise desse material.Trata-se, sobretudo, de um importante instrumento de trabalho para pesquisas futuras que podem, a partir dessa catalogação, localizar no tempo e no espaço informações dispersas, indentificando-as e datando-as de acordo com parâmetros precisos. "Inúmeros projetos de pesquisa podem nascer daí", diz um esperançoso Kossoy, lembrando mais uma vez que essa publicação - que mescla um certo sabor do tempo ao rigor científico - está longe de ser o encerramento de um ciclo. "Trata-se de uma obra em processo, uma história que não termina."

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