Um retrato da corte em palavras

A coletânea O Rio de Joaquim Manuel de Macedo traz à tona a vasta, variada e quase desconhecida produção de textos de não ficção que o autor de[br]A Moreninha (1844) publicou em jornais e revistas

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Joaquim Manuel de Macedo ficou famoso por causa de A Moreninha (1844), romance que virou sinônimo do gênero romântico no Brasil e já fez muitas moçoilas e rapazes barbados chorarem. Dr. Macedinho, como era popularmente conhecido, editaria a obra às próprias custas e não se arrependeria: o livro converteu-se em nosso primeiro best-seller. A despeito do sucesso, o ganha-pão do escritor seria obtido a partir da atividade como jornalista, articulista e cronista. Médico de formação, Macedo enveredaria pela literatura de maneira ampla. Num momento em que parecia natural cruzar a ponte entre jornalismo e literatura, Macedinho sagrou-se personagem descolado no Rio de Janeiro de Pedro II.

E começou cedo: com apenas 24 anos, além de se dedicar ao romance passou às páginas de jornal. Porém, se sua obra ficcional é conhecida, já a produção jornalística permanece pouco divulgada. A desproporção é gritante, uma vez que o escritor publicou durante quatro décadas em vários órgãos cariocas. Apenas no sisudo Jornal do Comércio, reduto conservador dos mais estáveis, Macedo foi presença cativa durante 25 anos, sem interrupção. Suas colunas ocupavam o espaço prestigioso do rodapé da primeira página de domingo; dia em que a circulação duplicava. O fato é que Macedo sagrou-se principal colunista do Rio de Janeiro, esse centro difusor de vogas do Império.

Macedo era mesmo um agitador. Secretário do prestigioso Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, por lá ajudou a criar uma tradição para nossas artes, letras e história. Nosso escritor usaria da Instituição, de suas boas relações e da sua literatura ágil para fortalecer seu grupo, empenhado na construção cultural do País. Junto com Gonçalves Dias, Araújo Porto-Alegre e Gonçalves Magalhães comporia o grupo forte do Imperador que mostraria como as fronteiras entre ficção e não ficção podiam ser porosas.

Suas atividades não parariam por aí. Macedo dirigiu A Nação e a revista A Guanabara e como jornalista percorreu a via-crúcis de boa parte dos periódicos da Corte: Biblioteca Brasileira, Correio Mercantil, O Globo, Jornal das Famílias, A Manhã, Marmota Fluminense, A Nação, Ostensor Brasileiro, A Reforma, A Rosa Brasileira, Revista Popular, Revista do IHGB, Semana Ilustrada, Minerva Brasiliense.

É em torno dessa produção tão gigantesca como desigual que se debruça Michelle Strzoda em O Rio de Joaquim de Macedo. O texto introdutório, a despeito do amplo apanhado sobre a atividade jornalística e literária à época, acaba não trazendo biografia mais alentada de Macedo, que permitiria entender a atuação alargada do escritor. Além do mais, não ficam claros os parâmetros utilizados na seleção das crônicas. Não se discute o valor documental da obra, mas a inexistência de critérios claros, faz com que o leitor enfrente textos saborosos e outros que, diante da ação impiedosa do tempo, tornam-se cifrados.

Na verdade, o que mais se destaca após a leitura da coletânea é um escritor capaz de discorrer sobre tudo e todos: a cidade e seus personagens, a cultura local, a política e suas falcatruas, os hábitos de leitura, a paisagem tropical idealizada, o cotidiano por vezes tedioso, ou a história dos parcos monumentos locais. Misto de historiador, etnólogo e arauto de curiosidades, Macedo parece mais um recitador da cidade.

Há momentos que irão surpreender o leitor, ao notar que o autor de A Moreninha era capaz de vestir a carapuça de crítico ardido: "Vivemos em uma época de pasmosa esterilidade: quando os anos tiverem passado, os vindouros hão de reunir a história toda da geração atual em duas breves: politicou e negociou".

Intelectual da capital, não poucas vezes Macedo se dirigiu a ela sem concessão: "As nações têm, como os homens, duas vidas muito distintas: a vida pública e a vida privada; a vida do estado e a vida do lar doméstico". Atento aos novos costumes e modas fáceis, Macedo denunciava a proliferação de jornais, em detrimento de livros; ou o excesso de leis: "Tanto na corte como nos municípios do interior o povo, crismou com o nome de imposturas as posturas da câmara". Irônico, ele desfaz das medidas que pretendiam higienizar a cidade, mas sem investir em sua infraestrutura.

Flaneur das ruas do centro carioca, Macedinho brincava com o atraso dos ônibus (que traziam a "tabuleta de oito quando os sinos da igreja marcavam 9 horas da manhã"); com "as desregradas aposentadorias"; com a falta de lisura dos membros da Câmara, definida como "uma noiva sem dote", ou com os atrasos nas obras públicas caracterizados pelo provérbio: "velhos como as obras das Sé".

Desfazia também dos "sofistas que sustentam que a alforria de um escravo é um mal que a eles se faz". Aí estava um Macedo à sua maneira abolicionista, autor de Vítimas e Algozes, que, escrito em 1869, logo criou grande polêmica.

A autora da coletânea acertadamente reproduz na íntegra as Memórias da Rua do Ouvidor. Aqui está o mais importante relato sobre essa rua que virou símbolo de elegância entre os bem nascidos da corte. Era lá que se praticava o ritual do ver e ser visto e Macedo flagra, com um misto de encanto e escárnio, essa nova agenda da corte, que se veste à europeia mesmo enfrentando um calor de 40 graus. Modistas franceses, ourives, floristas, lojas de fazendas, cabeleireiros, perfumarias, ateliês de fotografia, restaurantes, nada escapa ao olhar de Macedo, ele próprio um habitué local.

Mas afora alguns bons exemplos, o grosso das crônicas parece ter perdido seu frescor original. A coletânea terá grande valor para investigadores, mas talvez seja demasiado especializada para o público geral. Conforme brincava Caio Prado Júnior, quando se pretende justificar uma pesquisa, nem sempre o argumento de que ela nunca veio a público é suficiente. Por vezes, é preciso indagar sobre seus limites. Nesse caso, uma seleção mais apurada salvaria a memória desse autor, que bem merece que sua obra de não ficção ganhe novos leitores.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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