Um resgate dos primórdios da foto no século digital

No Rio e na SP-Arte/Foto, antiga técnica é apresentada por fotógrafo carioca que se dedica há 18 anos a estudá-la

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2014 | 02h07

Num tempo em que para se fotografar basta um toque na tela de um celular, e no qual o excesso de imagens desnorteia e exaspera, divulgar uma técnica do século 19, que requer uma longa aula e um procedimento químico intrincado, pode parecer algo sem sentido. O fotógrafo carioca Francisco Moreira da Costa jura que não é.

Romântico, ele se dedica a propagar a daguerreotipia, o primeiro processo fotográfico da História, publicado em 1839 pela Academia das Ciências de Paris. Até hoje, é considerado o que produz imagens com a melhor resolução, superando, inclusive, as mais modernas câmeras digitais. Mas os daguerreótipos não se parecem com a fotografia que conhecemos bem: antes de mera captura da realidade, são obras de arte.

Ontem, Dia Mundial da Fotografia, Costa deu workshop sobre o tema no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio; de hoje a domingo, expõe o resultado de seu trabalho na SP-Arte/Foto, braço da SP-Arte voltado exclusivamente à fotografia, no Shopping JK Iguatemi.

A data internacional tem origem na publicação da descoberta do francês Louis Jacques Daguerre (1787-1851). Ele foi antecedido por Joseph Niépce (1765-1833), que, em 1826, já havia conseguido gravar numa placa, coberta com um derivado de petróleo fotossensível, a vista de sua janela. Foram oito horas de exposição de luz solar e, ainda assim, a imagem não se fixou perfeitamente. Nascia a primeira fotografia do mundo.

Daguerre percebeu que, em 20 minutos, era possível conseguir um resultado de qualidade muito maior. Para tal, era preciso polir bastante uma placa de prata, ao ponto de transformá-la num espelho perfeito. Em seguida, colocá-la numa caixa de madeira, para lá cobri-la com vapor de iodo; depois da captura da imagem, banhá-la em mercúrio, um potente fixador, em outra caixa.

Em pouco tempo, suas naturezas-mortas ficaram notórias. A técnica foi difundida em Paris e no mundo: todos queriam ter seu retrato eternizado, coisa que até então só um pintor podia proporcionar, e sem o realismo da foto. O fato de ser um positivo direto impedia a reprodução (a solução viria mais tarde, com o negativo).

No Brasil, as notícias sobre o sucesso do daguerreótipo empolgaram d. Pedro II, que foi o primeiro fotógrafo brasileiro. Ele recebeu um equipamento seis meses depois da apresentação em Paris. "Mas não conseguiu usar. Era muito difícil. Quando chegaram daguerreótipos, eram de viajantes. Anunciavam no jornal que o daguerreotipista estava na cidade e era grande a procura para retratos", conta Costa, que há 18 anos segue os passos da Daguerre.

Como por aqui não existem placas de prata à venda (nos Estados Unidos, custam US$ 100), ele compra grandes pedaços de cobre, que são cortados de modo a caber nas caixas, fabricadas por ele próprio. Então manipula as substâncias químicas para obter as imagens. Os cliques são numa câmera Speed Graphic de 1940, a primeira usada para fotojornalismo no País.

A paixão levou Costa a montar o Estúdio Século 19, em Lumiar, localidade pacata da Região Serrana do Rio. Lá, recebe grupos para oficinas - o que repetiu ontem no IMS para 18 alunos e vai reproduzir no Museu Histórico Nacional, em data ainda a ser marcada nos próximos meses. Destinada a amantes da fotografia, a aula, intitulada "Vivência em daguerreotipia", tem duração de nove horas.

Teimoso. Costa é fotógrafo do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Iphan. Foi num curso no Rochester Institute of Technology, no estado de Nova York, em 1989, que, estudando história da fotografia, ele se interessou pela daguerreotipia. "Fiquei encantado. Continuei pesquisando, experimentando. Sou teimoso, já desisti várias vezes e volto. Sinto falta do aspecto artesanal da fotografia, do laboratório. Sigo um manual do século 19", diz o fotógrafo, o único brasileiro com dedicação sistemática à técnica, e um dos quarenta em atividade no planeta (eles se reconhecem na Daguerreian Society, que realiza simpósios anuais).

O fotógrafo não tem dúvida de que exista espaço para a prática no século do digital - nem que seja em exposições, como a da SP-Arte/Foto, na qual estão imagens suas que remetem aos primórdios da fotografia no Brasil: cestos, frutas e candeeiros.

"Daguerreotipia não tem utilidade prática alguma, assim como a arte. Mas vejo as pessoas interessadas nessa desaceleração. O mundo não pode ser tão rápido. A imagem é linda, todo mundo deveria conhecer."

Para Sergio Burgi, coordenador da área de fotografia do IMS (a principal da casa), essa técnica atrai não só fotógrafos, sejam eles profissionais ou diletantes. "É um tipo de imagem que a gente consegue obter hoje tal qual se fazia 175 anos atrás. Entender o daguerreótipo é refletir sobre o processo fundador da fotografia e da história da comunicação visual."

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