Um registro terno e quase documental da vida nas estepes

Um registro terno e quase documental da vida nas estepes

A história não poderia ser mais singela: depois de completar o serviço militar, rapaz volta para sua região e quer ser pastor de ovelhas. Para isso, precisa arranjar uma esposa. Escolhe a bonita Tulpan, que dá título ao filme, mas esta acha o moço feio, por ter orelhas grandes demais. Asa (é o nome do rapaz) tenta conquistá-la de todos os jeitos.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

O filme é do Casaquistão e a direção, de Sergei Dvortsevoy. Inútil dizer que se trata de um espécime raro, mas não de todo estranho ao apreciador dos filmes chamados "de arte" no Brasil. Esses há muito já se habituaram a títulos vindos de "outras geografias", como costumam dizer - Irã, Filipinas, ex-repúblicas soviéticas, etc. Em toda parte se faz cinema. E, muitas vezes, cinema cuja linguagem não é aquela a que nos habituou o mainstream norte-americano, e nem mesmo as várias alternativas europeias.

Desse modo, para o não-iniciado, é preciso talvez um processo de adaptação à maneira como Dvortsevoy trata o seu assunto. Ele fala de um meio pastoril alheio à modernidade e, para mostrá-lo, usa planos longos, muitas vezes estáticos, como a sublinhar a beleza da região e de seus personagens. Deve-se dizer, da mesma forma, que não se trata de uma beleza convencional. Mas é função desse tipo de filme sensibilizar o espectador para um tipo de estética à qual não está habituado.

E, para ser franco, isso não é nada difícil. Basta um pouco de boa vontade. Primeiro, porque a história é lindíssima, em sua simplicidade desarmada. Segundo, porque Dvortsevoy se empenha em dar a este filme de ficção um tom francamente documental. De que maneira?

Tentando se colocar como um observador (carinhoso) de determinado modo de vida que parece condenado de maneira irremediável à destruição. Não existe muito futuro por lá, e Tulpan, na verdade, não rejeita o pretendente apenas por uma questão estética, mas porque pressente que a vida pode estar em outra parte. O lugar é belo, bucólico, silencioso e contemplativo - mas é também estagnado. Não oferece grandes expectativas aos moradores. E não há muito que se possa fazer. Daí que o tom dominante passa a ser também o da melancolia.

Por outro lado, Dvortsevoy não faz do seu filme um apelo saudosista. Como observador, ele registra um modo de vida, à maneira quase etnográfica. O "quase" fica por conta do seu envolvimento emocional, da maneira como usa a ficção para fazer desse também semidocumentário uma peça envolvente e fascinante. O filme participou do Festival de Cannes, no qual ganhou o prêmio Cámera d"Or e foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Prova de que o diretor não ficou falando sozinho ao trabalhar com tema e região distantes, porém de forma afetiva e nada hermética.

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