UM RAIO-X DA ORDEM MUNDIAL

Declínio do poder dos EUA e ascensão do Brasil pontuam reflexões de Rubens Barbosa

EDUARDO GRAEFF, CIENTISTA POLÍTICO, FOI SECRETÁRIO-GERAL DA PRESIDÊNCIA, DA REPÚBLICA DURANTE O GOVERNO DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h10

Para quem não se contenta com patriotadas, é difícil definir o interesse nacional de um país em transformação num mundo em transformação. Rubens Barbosa é um dos brasileiros mais qualificados para esse tipo de exercício intelectual. A reunião de artigos seus em Interesse Nacional & Visão de Futuro realça a amplitude da sua informação sobre o Brasil e o mundo, acumulada ao longo de uma carreira notável de diplomata e estudioso da economia global. Mais que tudo, prova sua capacidade de ligar os fatos da cena internacional com perspicácia incomum, evitando o simplismo, anacronismo, facciosismo e outras cascas de banana abundantes nesse terreno.

A maioria dos artigos apareceu originalmente no Estado, de 2010 a 2012. Uns poucos são anteriores, desde 2005, quando Barbosa retornou ao País e à vida civil depois de anos de serviço como embaixador do Brasil em Londres e Washington. Sua reflexão estratégica é balizada por dois fatos desse período: o declínio relativo do poder econômico e político dos EUA; e o reconhecimento do Brasil como um país relevante fora do nicho sul-americano.

Seu mapa de um mundo multipolar coincide em linhas gerais com o de Parag Khanna em O Segundo Mundo. O contraponto ao poderio dos EUA é a ascensão da China como usina manufatureira global, com fôlego para se afirmar como superpotência. Europa e Japão mantêm sua relevância, embora não no mesmo patamar dos dois atores principais. Brasil, Rússia e Índia formam com a China o grupo dos emergentes de maior peso demográfico e econômico. Com alguns outros países, detentores de grandes reservas de petróleo ou/e armas nucleares, eles podem influenciar o equilíbrio do poder mundial, aliando-se variavelmente às potências dominantes e entre si. Acrescentem-se o rescaldo da crise financeira, múltiplos conflitos étnicos e religiosos, desigualdades sociais exacerbadas e o fantasma da mudança do clima, e tem-se um quadro de enorme complexidade e volatilidade.

Sobre esse tabuleiro móvel o Brasil deve achar caminhos para o futuro, tecendo parcerias externas e empreendendo as mudanças internas necessárias para realizar seu potencial de desenvolvimento.

A inclusão nos Brics foi um bônus simbólico para os progressos efetivos do País nos últimos 20 anos. "Nenhuma campanha de divulgação do Brasil conseguiria essa façanha de marketing em tão curto espaço de tempo", nota Barbosa. Na falta de resposta adequada aos desafios pela frente, porém, o proveito real pode se mostrar menor que a fama.

A ascensão da China impulsionou o crescimento do Brasil via exportação de commodities, mas pôs em cheque a competitividade da sua indústria. O balanço não é exatamente animador: enquanto o Mercosul patina como projeto de união aduaneira, o Brasil deixa de firmar acordos de livre comércio com outros países e vê seus manufaturados perderem espaço para os chineses.

O problema não está na China nem nos outros parceiros externos. Decorre de obstáculos internos: os gargalos de infraestrutura que oneram a indústria e a própria agricultura; e a paralisação das reformas tributária, trabalhista, da previdência social e política.

Na busca de vontade política para destravar a agenda de reformas, Barbosa, às vésperas da eleição de 2010, chega a cogitar uma convergência de PT e PSDB nos cem primeiros dias do novo governo. Houve algo parecido para aprovar reformas da previdência dos servidores no começo do primeiro governo Lula. Tanto o jogo do poder como concepções e compromissos diferentes sobre o papel do Estado, porém, acentuam a polarização entre os dois partidos.

Não só os atores políticos como a própria sociedade parecem alheios à necessidade de ajustar o curso do País ao mapa cambiante do mundo, lamenta Barbosa.

Uma nova crise econômica terá que bater à porta para despertá-los? Enquanto algo assim não acontece, analistas argutos como Barbosa parecem fadados a relatar o processo (in)decisório do Brasil como uma crônica de oportunidades perdidas.

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