Um quebra-cabeça a ser resolvido

Há cerca de quatro meses, uma equipe pequena da Geográfica, empresa que presta serviço de impressão para editoras como Companhia das Letras, Objetiva e Sextante, sentou-se em frente de um arquivo em ePub para entender a dimensão do problema. Trata-se, afinal, do formato escolhido até o momento pelo mercado editorial mundial como o padrão para os e-books, uma espécie de MP3 dos livros. Ou seja, o formato que pode vir a tornar cada vez menos necessária a impressão em papel que a Geográfica oferece.

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Como uma criança que retira peças de um relógio para entender o mecanismo, os programadores contratados pela empresa foram desmontando o arquivo para em seguida remontá-lo até se familiarizarem com o formato. Neste mês, a empresa viu no mercado os resultados iniciais de seu novo serviço de conversão de livros para ePub: os quatro primeiro e-books do selo Penguin Companhia Clássicos. "Quando vimos no Congresso do Livro Digital (realizado em março em São Paulo) o pessoal que trabalha em gráficas aterrorizado com a ideia do fim do papel, percebemos um novo nicho", diz Ariel Vido, gerente de pré-impressão da Geográfica. "Não é trabalho dos mais fáceis. A gente quebra a cabeça no que parece detalhe, na base de tentativa e erro."

Tanto não é fácil que, no começo do ano, a alternativa que as editoras brasileiras tinham era a de mandar seus arquivos em PDF para o outro lado do mundo, em geral a Índia, para que empresas de lá fizessem a conversão. Essa ainda é uma opção usada por editoras, a despeito de dificuldades como a diferença no fuso horário e o desconhecimento dos programadores indianos da língua portuguesa, o que faz com que arquivos convertidos voltem sem cedilhas, hífens e, às vezes, até sem pedaços do texto. Nos últimos meses, no entanto, começaram a surgir as alternativas nacionais.

A mais avançada é a Livraria Cultura, cujo departamento de e-books começou a estudar a conversão para ePub em janeiro, dois meses antes de a loja de livros digitais entrar no ar. O coordenador Mauro Widman buscou no mercado pessoas que entendiam de HTML, a linguagem usada na construção de sites ? e similar ao XML, com o qual se faz o ePub. Entrevistou cerca de 50 programadores e selecionou seis, que hoje convertem até 50 títulos por mês, para editoras como a Record e a Contexto. A equipe deve dobrar de tamanho em breve ? há mais de cem títulos parados, à espera de conversão. "Não é um serviço que dê lucro", diz Widman, "mas temos a meta de chegar ao fim do ano com 4 mil e-books no catálogo, para aumentar as vendas". Hoje, os e-books nacionais na loja são cerca de mil.

Nos EUA, é comum as editoras converterem seus livros, o que exige contratação de mão de obra. No Brasil, esse passo ainda parece grande demais. A Companhia das Letras, por exemplo, prefere terceirizar o serviço com a Geográfica, a Cultura e a indiana Aptara. Mas sua equipe passou por treinamentos para trabalhar com a nova mídia. O processo todo não sai mais caro que o de diagramação e revisão de um livro impresso, embora o trabalho seja dobrado ? é preciso refazer o livro, já que são diagramações e revisões diferentes. Mas Eduardo Melo, que em maio fundou a empresa Simplíssimo, acredita que logo as editoras nacionais terão setores de conversão. Tanto que, embora ofereça o serviço, foca em venda e distribuição. "No ano que vem, as editoras já estarão em vias de dominar ou dominando a conversão. No exterior, é algo trivial. Não é normal depender de solução externa."

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