Um projeto demolidor vira Bach pelo avesso

Com ótimas intervenções da pianista Simone Dinnerstein, CD testa preconceitos por causa de suas incursões roqueiras

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2014 | 10h31

Não conheço, não gosto. Esta é a atitude mais prejudicial num ouvinte de música. Para avaliar, gostar ou não, é preciso ouvi-la sem preconceitos. Só depois, temos condições de exercer nosso gosto. Não precisamos gostar de tudo o que ouvimos. Mas precisamos conhecer, até para afinar o gosto pessoal.

É o caso do recém-lançado CD Bach Re-Invented (Sony, download $ 9,99). São todos grandes músicos, tanto os integrantes do Absolut Ensemble quanto o regente Kristjan Järvi e a pianista Simone Dinnerstein. Mas o resultado final é desequilibrado, com momentos interessantes e outros beirando o ridículo.

O estoniano Järvi é aquele regente que encantou o Brasil há alguns anos, com uma versão incendiária da Sagração da Primavera com a Osesp; e, no ano passado, protagonizou o evento clássico de 2013 com uma integral das sinfonias de Beethoven com a Orquestra de Bremen.

O pai e dois outros irmãos também são regentes, mas o que diferencia o caçula dos Järvi é a ousadia. Há 20 anos, montou o Absolut Ensemble em Nova York para fazer música nova. Com o tempo, só aumentou seu apetite omnívero - a palavra é feia, mas perfeita para caracterizar a vontade de provar todos os tipos de música, do improviso ao hip-hop e as experimentais. Trabalharam com o tecladista de jazz austríaco Joe Zawinul; e, em 2009, à frente da Tonkunstler Orchestra, gravou uma versão da Nona Sinfonia de Beethoven que Mahler praticamente reescreveu e usava ao regê-la em Viena.

Nenhum de seus projetos é tão demolidor quanto este. Ele vira Bach pelo avesso, carnavaliza o autor da Missa em Si Menor. Alguns dos 18 integrantes do grupo basearam obras novas sobre as invenções a duas e três vozes, combinadas com a execução fiel dessas invenções por Dinnerstein. O piano austero de Bach convive com cinco reinvenções e um bizarro concerto para piano do guitarrista e rapper Gene Pritsker; "toopART reinventions", em oito partes, do saxofonista Daniel Schnyder antecede a derradeira faixa, de novo uma execução fiel, ao piano, da invenção n.º 8 em fá maior BWV 779.

As incursões mais roqueiras, com direito a guitarra elétrica, não agradam a todos; mas outras são ótimas, como as intervenções de Simone, o concerto para piano e as toopART reinventions. Os ouvidos reconhecem até uma gravação original de Glenn Gould tocando Bach no meio dessa parafernália. De fato, Järvi e seus excepcionais músicos do Absolut Ensemble reinventam Bach.

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