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Um presidente a mais, um a menos

O chamado 'homem mais poderoso do mundo' tem limites notáveis

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2016 | 03h00

A eleição norte-americana foi recebida como uma bomba de nêutrons por muitas pessoas. As pesquisas pareciam indicar uma ligeira folga a favor de Hillary Clinton. Abertas as urnas, houve a surpresa na manhã do dia 9 de novembro. Especialistas sempre dizem que previam tudo, que era esperado, etc. Eu devo reconhecer: o resultado foi uma completa surpresa para mim, e, provavelmente, para o próprio Trump. Houve surpresa, mas não estou entre os pessimistas. Por quê?

Escrevi no Estadão, na véspera do resultado, que não havia diferenças abissais entre a candidata democrata e o republicano. Não chego a endossar a tese de Noam Chomsky (existe um partido com duas facções), mas as semelhanças são tão notáveis que intitulei o artigo Trumpillary. Ambos jogavam para a torcida: uma dizendo coisas para agrado de todos e o outro detonando tudo. A grosseria de Trump cativou mais o eleitorado do que a retórica teatral de Hillary. Como numa novela, identifico-me mais com um dos atores, mas, por vezes, esqueço-me que o autor é o mesmo para todos. Trump e Hillary não são idênticos, mas pertencem a duas espécies do mesmo gênero. Vamos adensar a reflexão.

William Jefferson Clinton, o marido de Hillary, foi um dos presidentes mais ricos dos EUA. Se eleita, a esposa de Bill teria sido também uma das milionárias a entrar na Casa Branca. Democratas milionários são comuns: os Kennedys, os Roosevelts, os Clintons. Lembremos que Bill Clinton já era rico, mas que ficou ainda mais após a presidência. Num único mês de 2014, o ex-presidente teria recebido quase dois milhões de dólares por seis palestras. Temos aqui um ótimo plano de carreira para o quase aposentado Obama. Trump, Bush 1, Bush 2 e Hoover mostram que republicanos também amam acumular.

Já houve gente menos dourada em Washington. Truman tinha a fama de não possuir patrimônio expressivo. Um dos quatro presidentes assassinados dos EUA, James Garfield, foi porteiro e carpinteiro antes da presidência. Garfield, tal como o famoso Lincoln, morou numa cabana de lenhador. São exceções antigas: a norma das últimas décadas é de gente mais abastada. Faz parte de uma reflexão do eleitorado dos EUA: se o candidato não conseguiu nem arrumar sua vida, como arrumará a do país? Lembrem-se de que a mentalidade americana média não vê no dinheiro um desvio de caráter.

Donald Trump não parece ser um modelo moral, especialmente no trato com as mulheres. Nisso também não é original. O público jovem lembra dos escândalos de Bill Clinton com Monica Lewinski. Os mais velhos recordarão que Kennedy sofria de uma espécie de priapismo, um estado de sexualidade exuberante. O livro O Lado Negro de Camelot, do jornalista Seymour Hersh, faz uma análise assustadora sobre o carismático presidente católico. Lyndon Johnson, seu sucessor, trazia a rudeza descarada que alguns associam ao seu estado natal, o Texas. Testemunhas falam de frases impublicáveis quando ele, em pleno salão oval, beliscava partes pudendas da sua esposa, Lady Bird Johnson. Bem, ao menos era a consorte...

O batista georgiano Jimmy Carter parecia ser, exemplarmente, recatado. Uma incontinência verbal arranha sua vitrina pudica. Ele afirmou que teria pensado de forma impura (pensado, apenas) em mulheres e teria, assim, de acordo com uma regra bíblica, cometido adultério (I’ve looked on a lot of women with lust. I’ve committed adultery in my heart many times). Essa afirmação, dada à revista Playboy, foi, aparentemente, a coisa mais grave que ele fez na vida. Mas Carter não encerrou a presidência com popularidade ou com fama de bom administrador. A crise dos reféns do Irã, a inflação e até um ataque de um coelho assassino ao seu barco de pesca (sim leitor, você leu corretamente, pesquise sobre o “rabbit incident”) fizeram com que o mais puro dos presidentes terminasse com a fama de incompetente e fraco. Kennedy fornicava e Carter fantasiava. O luxurioso é um dos mais queridos governantes na memória americana e o casto com imaginação continua mal avaliado.

Volto ao eixo narrativo. O presidente dos EUA tem de dividir quase tudo com um Congresso forte. Trump terá maioria, mas não é um republicano autêntico e conta com a antipatia dos caciques do Capitólio. O posicionamento do Congresso ainda é nebuloso para o quadriênio 2017-2020. O Banco Central Americano (o FED) tem muito mais autonomia do que o brasileiro. Parte das decisões financeiras foge à presidência. Apesar da opinião dos críticos, os EUA são um país de liberdade de imprensa real. A economia americana tem vida própria e as instituições são sólidas. Querem exemplos? O atual presidente é popular e carismático, mas lutou muito para aprovar seu modelo de plano de saúde, o Obamacare. A simples promessa de fechar Guantánamo não foi, de fato, cumprida. O chamado “homem mais poderoso do mundo” tem limites notáveis.

Poderia argumentar muito mais. Enfatizo minha posição: Trump tem grande talento cênico com suas caras e bocas. A personagem parece, por vezes, extraída da uma opereta cômica, mas ele não é notavelmente distinto de uma tradição da presidência. É provável, caro leitor, que sua vida siga absolutamente como sempre foi. O fetiche da política é compreensível. O que me deixa impressionado é o imenso grupo que considera que democracia só existe quando vence o candidato que eu aprovo. Um bom domingo a todos vocês.

 

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