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Um porto na montanha

Elizabeth Bishop e a linda casa mineira onde viveu alguns de seus melhores anos de Brasil

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2019 | 03h00

De dezembro de 1951 a abril de 1974, a aventura brasileira de Elizabeth Bishop, a homenageada da próxima Flip, estendeu-se por 22 anos – alguns deles, os anos finais, vividos em Ouro Preto, sobretudo depois da morte de sua companheira, Lota de Macedo Soares, em 1967. A cidade não tomou conhecimento da grande poeta americana. Nós, os então jovens escritores de Minas, também não. Hoje, leitor apaixonado de tudo o que ela escreveu, carrego a frustração retroativa de ter cruzado com Elizabeth em Ouro Preto, talvez nas madrugadas de Belo Horizonte, sem me dar conta de quem estava ali. Consolam-me as histórias que saltam de seus livros e, em especial, da memória de seus (e meus) amigos Linda e José Alberto Nemer, vinhetas que um dia reuni com a pretensão de iluminar ainda mais a personagem que Marta Góes tão lindamente recriou na peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’. 

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Ela adorava aquela casa, construída entre 1698, dois anos após a descoberta do ouro na região, e 1711, quando Ouro Preto foi elevada à condição de vila. Comprou-a em 1965 e não teve outra na vida, a não ser o apartamentinho de Boston onde morreria em 1979. Tinha, dizia Elizabeth, “o telhado mais lindo da cidade”, cuja forma lhe sugeria “uma lagosta deitada de bruços”. Batizou-a Casa Mariana, não por estar plantada à beira do caminho que leva a essa cidade, mas em homenagem à poeta americana Marianne Moore, mestra e amiga. Perfeitamente conservada, pertence hoje aos irmãos Nemer.

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“Gosto de Ouro Preto”, explicou Elizabeth ao poeta Robert Lowell, “porque tudo lá foi feito ali mesmo, à mão, com pedra, ferro, cobre e madeira. Tiveram que inventar muita coisa – e tudo está em perfeito estado há quase 300 anos.” Não havia mudado de opinião cinco anos mais tarde, numa entrevista ao Jornal do Brasil: “De Ouro Preto, gosto sobretudo das coisas que são feitas aqui. Os móveis, os utensílios do século 18 são sólidos. O clássico não me atrai, o que importa é a durabilidade – aqui as coisas permanecem”.

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Elizabeth tinha dois gatos, Suzuki e Tobias, dados a se aconchegar. “Eles gostam de experimentar o colo das visitas”, explicava.

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Adorava café na cama. Levantava-se, fazia um tanto de coisas – e, de volta às cobertas, pedia o breakfast. Gostava de variar de bandeja e caneca, que tinha em profusão. Quando Anny Baumann, sua médica e amiga, foi passar uns dias na Casa Mariana, tratou de incorporá-la a esse desjejum na alcova. Tratavam-se de “Dra. Baumann” e “Miss Bishop”, mas a intimidade daquele desalinho matinal acabou estimulando a médica a propor uma quebra em tamanha cerimônia: “Já que nós tomamos café de camisola”, anunciou, “vou te chamar de Elizabeth”. Mas a amiga continuou a chamá-la de “Dra. Baumann”.

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Acordava e punha logo um disco. Janis Joplin, Bob Dylan – ou Joan Baez, cujas letras copiava, esperançosa de ensinar inglês a Linda Nemer. Queria traduzir Não Identificado, de Caetano Veloso, mas esbarrou na impossibilidade de passar para o inglês a conotação fonográfica embutida em “disco voador”.

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Teve uma jovem empregada, Vitória, e cuidou de vesti-la com uniforme, meias três-quartos e o mais. Para ensinar-lhe inglês, escrevia nas coisas os nomes que as designavam – window, table, chair... A cozinha da Casa Mariana era inteirinha escrita em inglês.

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Seu talento era também culinário. Preparava pratos indianos (trazia curry dos Estados Unidos), lombo de porco com purê de maçã, abobrinha ao forno, geleias, conserva agridoce de legumes, tortas de maçã e de limão... Bem americana, tinha termômetro para controlar o cozimento da carne, colherinhas para medidas exatas, panelas dinamarquesas com design dos anos de 1940. Inda há quem se lembre da batida de limão de Elizabeth Bishop.

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Bebia muito, muito, e quase sempre na cama – onde também costumava escrever, o caderno apoiado numa prancheta. Começava com uísque, descia para a cachaça. Depois de esvaziá-la, rolava a garrafa para baixo da cama. Não se levantava mais, e não via noite nem dia. Cantava, ria, chorava, conversava com imaginários interlocutores. Jamais agressiva. Virava um trapinho, obedecia às ordens que lhe dessem. Tinha dia de chamar Vitória, chamar o chofer e tocar para a casa de Linda, em Belo Horizonte: “Não aguento mais, me salva!”. A amiga lhe dava o confortável quartinho dos fundos e encarregava Dilza, a empregada, de preparar um suco de laranja, uma comidinha leve. Elizabeth, que era cheia de pudores, ficava constrangida quando a chamavam para a mesa – não queria que reparassem nas mãos trêmulas da bebida.

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Ao sentir que já não dava conta do alcoolismo, pedia para ser internada. Levavam-na então para a clínica Pinel, em Belo Horizonte. Depois passava uns dias na casa dos Nemer, antes de retornar a Ouro Preto. Atravessava romances policiais, estoques que o caçula José Alberto, jovem artista plástico, seu xodó, ia renovar na livraria. Pintava aquarelas em papel ingres que Linda comprava na Livraria Oscar Nicolai. E adorava engraxar sapatos – seus e de todo o pessoal da casa. Divertia-se também polindo a prataria. (Falava de duas “besteiras” que, entre muitas, nunca fez: vender a prataria e mexer no capital.)

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Belo Horizonte, disse em carta ao poeta James Merrill, era “a cidade mais feia do mundo”. Mas acabou descobrindo ali “alguns lugares bastante apresentáveis, até divertidos”, entre eles “um restaurante maravilhoso” (provavelmente o finado Tavares, especializado em caça) e um boteco onde, além de batidas “de todos os sabores possíveis”, topou certa vez com “cerca de sete poetas às duas da manhã”.

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Foi com Linda à serra da Piedade, nas cercanias de Belo Horizonte, e decidiram almoçar. O cozinheiro veio lá de dentro com o bife espetado no garfo. De tão batido, ficara quase translúcido. Elizabeth não parava de rir: “Eu vou comer um pedaço de renda...”. 

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De passagem por Ouro Preto, umas grã-finas do Rio, amigas de Lota, foram visitar Elizabeth. A filha de uma delas, mocinha, lhe perguntou o que fazia na vida. “Sou escritora”, respondeu. “Ah”, disse a outra, “pensei que a senhora trabalhasse...”

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Uma noite Elizabeth improvisou um serão lítero-musical, com uma gente simples que provavelmente conhecera em botequins ouro-pretanos. Um dos convidados ia em meio à exaltada declamação de um poema quando irrompeu na sala, esbaforida, uma jovem americana, amiga de Elizabeth, trazendo um guardanapo que abriu teatralmente no centro da roda: “Escorpião! Escorpião!”. Parou tudo. A dona da casa voltou-se para o desacorçoado declamador: “Você, que é poeta, entende as tristezas que a gente passa...”.

Ela entendia.

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