Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Um pornô recatado e sem silicone

Com modelos de formas generosas, a revista Jacques oferece um retorno aos anos 60

Matt Haber, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

"Mantenha a pose." Jonathan Leder estava atrás de um tripé na varanda de uma decadente casa de madeira em West Kill, Nova York, apontando a câmera para Britney Nola, uma modelo de 19 anos que vestia apenas uma camisa cor-de-rosa desabotoada da American Apparel e folgadas meias azuis.

Atrás de Britney, que lembra uma jovem Brigitte Bardot, o quarto evocava o glamour desbotado dessa região das Montanhas Catskills conhecida como Alpes Judaicos - paredes revestidas de madeira e tvs com acabamento de compensado.

A casa apresentava uma calma e silêncio incomuns para a produção de um ensaio fotográfico, em especial um ensaio pornográfico. Não havia assistentes de câmera, nem iluminação especial.

"Preciso de mais filme", diz, a certa altura, o fotógrafo. Filme? Leder não é um pornógrafo comum. Junto com sua mulher e editora, Danielle, o fotógrafo barbado de camisa de flanela é o criador da Jacques, uma revista adulta do Brooklyn que reinterpreta a Playboy na era do pornô 3D e dos encontros às escuras marcados via GPS.

Acompanhada por um pequeno e influente conjunto de novas revistas eróticas - publicadas em lugares como Amsterdã e o Lower East Side -, a Jacques oferece um retorno consciente às revistas do fim dos anos 60 e início dos 70, antes da era dos implantes de silicone, do photoshop e dos vídeos em alta definição transmitidos via streaming.

Inaugurada em maio de 2009, a Jacques prefere modelos de formas mais generosas e sem silicone. As imagens resultantes parecem mais fotos tiradas durante as férias do que retratos feitos no estúdio. Trata-se de uma estética altamente estilizada que evoca a era distante das Polaroids. Leder usa filme de 35 milímetros, luz natural e nunca submete suas fotos a retoques ou manipulações digitais - que se danem as imperfeições e gordurinhas do corpo. "Boa parte da chamada pornografia é simplesmente nojenta", diz. Suas referências culturais são Hugh Hefner e Norman Rockwell. "Tento fazer algo mais íntegro, mais família." Isso se pudermos considerar íntegra a imagem de uma jovem vestindo uma camisa desabotoada empunhando um bastão de beisebol. A Jacques tem uma abordagem mais leve para a sexualidade, diferente da oferecida pela maior parte da pornografia contemporânea.

A revista não está sozinha na tentativa de reviver a pornografia impressa numa época em que o restante da indústria busca a expansão na internet. Revistas independentes como a Richardson, a Butt e a S Magazine não disfarçam sua abordagem pornográfica, mas mantêm-se suficientemente artísticas para serem deixadas na mesa da sala.

A Richardson, que voltou a ser publicada após um hiato de oito anos, é o chique projeto do estilista britânico Andrew Richardson, e traz atrizes famosas como Jenna Jameson e Sasha Grey junto com artistas de vanguarda como Carolee Schneemann e Valie Export. A S Magazine está cheia de fotos sensuais de modelos de ambos os sexos. A Butt, impressa em papel cor-de-rosa, transmite uma sensação deliberada de amadorismo e baixeza.

Para Jeremy Leslie, curador do Colophon, um simpósio de revistas independentes, essas publicações pornográficas de viés mais artístico misturam a nostalgia em relação à mídia impressa com uma sensibilidade mais orientada para a moda. "Esses títulos fazem parte de uma tendência mais ampla que busca recuperar certas áreas tradicionais da mídia impressa que têm sido cada vez mais dominadas por publicações ultracomerciais, produzidas em escala maciça e muito semelhantes entre si", acrescentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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