Um poeta no verso e versão de outro

Reedita-se, finalmente, este clássico de Guilherme de Almeida, datado de 1944, que é Flores das Flores do Mal.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Temos muito o que comemorar. Não se trata só da melhor maneira de ser de Baudelaire em português do Brasil. Nem só do fato de que esta "tradução" - para dizer como Guilherme não diria, por achar a palavra "desmoralizada" -, antecede todas as outras, sem nunca envelhecer.

Mais que isso, é de se ressaltar que os organizadores ainda recuperaram os instigantes depoimentos do poeta sobre seu trabalho, e suas reflexões antecipadoras acerca da tarefa do tradutor, que ele já entendia, aliás, como "recriação", o que continuamos ignorando solenemente. Além do que, o volume é bilíngue, e não por puro chiquê, pois esse capricho vem somar-se a uma fartura de aparatos críticos, que incluem uma nota inicial do editor, um antigo texto introdutório de Manuel Bandeira, de 1965, um posfácio de Marcelo Tápia e uma orelha de Murilo Marcondes de Moura. Não bastasse, as 21 versões, extraídas da seção Spleen e ideal do álbum baudelairiano, são aqui entremeadas por algumas das deslumbrantes ilustrações minimalistas feitas por Matisse - e salvas por milagre, depois de perdidas - para uma edição francesa de 1947.

Como formula Marcelo Tápia, também minimal, a coletânea "sobreviveu dignamente". Os franceses chamam de "litote" a essa figura da exacerbação do sentido pela atenuação a que ele faz apelo para nos dizer que o Baudelaire de Guilherme de Almeida é exacerbadamente bom. Razão pela qual já era tempo de reativá-lo.

Mas o que é ainda melhor que tirar as Flores das Flores do Mal do rol de eterno título esgotado é tirar o próprio Guilherme de Almeida - este maker aristocrático, no sentido grego de excelentíssimo -, de sua eterna condição de tradutor. Equívoco que prossegue, enquanto vamos ignorando aquela outra parte de sua obra, desta primeira inseparável, em que a operação de traduzir Baudelaire torna-se interior aos seus poemas, que também seguem eclipsados por coisas mais bem cotadas na bolsa de valores do modernismo.

É essa revisão que está fazendo agora a Casa Guilherme de Almeida. Começa-se, assim, a corrigir a tola impressão que continuávamos tendo, até hoje, aqui no país de Haroldo de Campos, de que alguém capaz de reescrever assim um grande poeta possa não ser um poeta maior.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

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