Um pintor dedicado a garantir o acesso democrático à arte

Análise: Antonio Gonçalves Filho

O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2012 | 03h14

A percepção do fenômeno cromático nas obras do venezuelano Cruz-Diez não se relaciona à forma. Ao criar, nos anos 1960, o que chamou de cromoestruturas, antes das fisiocromias que o tornaram famoso, o artista deixou implícita a interação do espectador com a cor diante desses trabalhos. O visitante em movimento acaba por perceber um espectro de cores inexistente no suporte, embora não se trate aqui de ilusionismo, como nos quadros populares de santos que trocam de identidade à medida que os fiéis andam. Essas fisiocromias não têm o caráter de trompe l'oeil, pois a proposta de Cruz-Diez não é a de enganar o olho. Ele quer, antes, ser fiel a ele, revelar a autonomia da cor por meio de uma poética espacial em que esse espectador é envolvido numa experiência cromática apenas movimentando seu corpo (o que lhe valeu uma equivocada classificação de artista cinético).

Didático e democrático, Cruz-Diez tentou de todas as maneiras envolver o espectador nesse processo de percepção cromática, ora criando cromointerferências (cores que se interpenetram), transcromias (lâminas transparentes que criam imagens e ambientes ambíguos) e cromassaturações (instalações em que o espectador é submetido a um banho de cor).

Essa longa trajetória de mais de meio século o levou principalmente a se dedicar a grandes projetos públicos para que o acesso a tais experiências cromáticas não ficasse restrito ao público que frequenta museus e galerias. Recentemente, Cruz-Diez, que trabalha com intervenções urbanas desde 1967, assinou o projeto do estádio de beisebol Miami Marlis, uma indução cromática no jardim que circunda o prédio. Essa pintura na pista de acesso ao estádio altera a percepção do ambiente e reproduz em maior escala a experiência realizada no ano passado em Colchester, Inglaterra, em que ele pintou com cores primárias uma faixa de pedestres.

O diálogo com a arquitetura começou em 1967. Ele pintou transcromias na torre Phelps, em Caracas, antecipadoras dos grandes projetos de ambientação cromática que passou a assinar nos anos 1970, entre os quais o do aeroporto internacional de Maiquetía, Venezuela. As fisiocromias e induções cromáticas marcam os principais projetos de integração com a linguagem arquitetônica, chegando mesmo a ocupar a fachada de prédios inteiros ou gigantescos painéis nas ruas, como em Madri ou em Houston. O mais recente projeto do artista, realizado este ano, volta a usar uma transcromia no altar da igreja de São Norberto, em Bogotá.

A sobreposição dessas tiras coloridas transparentes leva a alterar a percepção da luz conforme o movimento dos fiéis e acaba até mesmo incorporando uma dimensão simbólica, a exemplo da luz natural que penetra na cruz da igreja feita por Tadao Ando em Osaka, em 1989. Para a exposição da Pinacoteca, Cruz-Diez fez transcromias manipuláveis, telas sobrepostas de forma mecânica ou manualmente. Mais uma entre as várias portas da percepção abertas por ele.

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