Um piano que voa e uma orquestra que não sai do chão

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

No alto. O piano voador, na madrugada e a manhã de domingo

 

Não, você não bebeu demais - havia mesmo um piano sobrevoando a Praça Ramos de Azevedo lá pelas três da madrugada de domingo. Acoplado a ele, o pianista/acrobata, de terno brilhoso e estrela costurada nas costas, Ricardo Peres. Alçado por um guindaste, tocou Chopin, Nazareth e Piazzolla, observado pelo público e pela estátua de Carlos Gomes. "Gente, que angústia isso, e se esse homem cai?", preocupava-se uma menina sentada na escadaria. "Para que isso?"

Musicalmente, razão não tinha. Mas a Virada, afinal, também - ou principalmente - é festa, com direito a todo fogo de artifício e jogo de cena disponíveis. Raciocínio similar vale para o concerto da Sinfônica Municipal e do Coral Lírico, regidos por Rodrigo de Carvalho, que interpretaram na noite de sábado, no palco da Luz, entre a Pinacoteca e a estação, Carmina Burana, de Carl Orff. A obra costuma agradar em massa o público - e não foi diferente com a multidão presente ao concerto. Claro, sempre tem um chato para reclamar - um estudante estava indignado com a plateia, que aplaudia entre os movimentos da peça. Se fosse esse o problema... Desencontros, entradas erradas, canto de afinação aproximada, regência confusa - musicalmente, foi um concerto para ser esquecido.

Desconto, claro, para a péssima técnica de amplificação, que embola os instrumentos em um pesadelo timbrístico. Mas a Orquestra Experimental de Repertório, que subiu em seguida ao palco, saiu-se muito melhor na apresentação de trechos da ópera Porgy and Bess, de Gershwin, com Jamil Maluf e a presença de dois bons solistas - Edna D"Oliveira e David Marcondes.

Ontem à tarde, quem ocupou o palco foi a Osesp, com regência de John Nelson. As iniciais são as mesmas - e houve gente que, apressada, confundiu o americano com o ex-diretor do grupo, John Neschling. A orquestra tocou Robert Schumann - Manfred e a Sinfonia nº 2. Com um tom introspectivo, não é exatamente um programa ideal para espaços abertos. Mas a Osesp é a Osesp - e também sabe por de pé um bom show, com direito ainda a trechos de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, com participação da São Paulo Companhia de Dança.

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