Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Um piano dentro da mata

Gismonti e Naná unem contrastes em obra-prima que revisitam ao vivo

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

Há mais de 30 anos os paulistanos vêm esperando para ver Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tocarem ao vivo o repertório do antológico álbum Dança das Cabeças (1977). Na Virada Cultural de 2008, Gismonti acabou não vindo e Naná fez seu show solo. Enfim, parece que chegou a hora. Dentro da série Álbum, do Sesc Belenzinho, eles se apresentam de sexta a domingo na cidade. Corrigindo uma informação publicada no Caderno 2 em março, o show não é inédito em palcos brasileiros: eles tinham tocado o material desse disco no Rio em 1980, em Olinda (em 2007) e em outra cidade que Gismonti diz não lembrar.

"No Maracanãzinho foi a primeira vez que viemos mostrar isso no Brasil", lembra Naná. "Era um sonho mesmo, porque a gente tocava no mundo todo e não aqui. Foi um festival organizado pelo Zuza Homem de Mello. E o Maracanãzinho fez silêncio para ouvir. Isso foi incrível", conta.

A dupla ensaia na quarta e na quinta o repertório do show. Gismonti diz que não sabe exatamente como vai ser, mas espera que toquem "o melhor de Dança das Cabeças" e "novas coisas complementares". "Dança das Cabeças é um disco de muitas novidades na minha vida, sobretudo pela coragem de fazermos um disco fora do padrão dos grupos da época", diz o músico. Gismonti afirma que gosta de todos os seus 64 álbuns, "cada um com suas histórias, necessidades, alimentos e desenvolvimentos", sendo Dança considerado uma de suas obras-primas. Foi o primeiro registro dos dois pela importante gravadora alemã ECM.

Esse diferencial a que ele se refere é a formação instrumental: ele com seu recém-adquirido violão de 8 cordas, piano e flauta e Naná com os instrumentos de percussão (incluindo o próprio corpo). Harmonizando contrastes, a sugestão era fazer "o piano entrar na Amazônia", em sentido inverso ao de Villa-Lobos. Era Naná vindo do universo sonoro mais "raiz", digamos, tentando entender o refinamento erudito da formação do parceiro e levando sua contribuição. "Apesar das diferenças, a concepção, a maneira de pensar sobre música sempre foi muito parecida, então não tem muito o que pensar na hora de criar", diz Naná.

Para Gismonti ele "é um ser criativo por excelência, está sempre inventando coisas". "Não tenho um aparelho que meça contribuição, mas garanto que a presença dele, a alegria, a maneira de tocar, influenciaram a música final muitíssimo."

O encontro se deu de certa maneira por casualidade. A história, como lembra Gismonti, já foi contada tantas vezes que já ficou bem diferente da versão original. "Na época que recebi o convite para gravar meu primeiro disco na ECM Records, 1976/77, ainda existia uma "regra" imposta pelo governo militar que obrigava todos os brasileiros que viajassem para o exterior a efetuar um depósito compulsório. Não me recordo a quantia, mas era alta." Os músicos que tocavam em seu grupo, Robertinho Silva, Luiz Alves e Nivaldo Ornelas, não puderam efetuar o tal depósito, que não tinha devolução. "Diante dessa situação eles me deram força pra viajar sozinho e gravar o disco", conta.

Ele resolveu então parar em Paris uns dias antes de seguir para a Noruega. "Não tinha ideia do que fosse, sabia que fazia um frio fortíssimo e que tinha o sol da meia noite. Fiquei em Paris uns dias porque ali eu conhecia e me sentia seguro. Num desses dias eu estava no restaurante histórico chamado La Coupole quando ouvi: "campeão, campeão!". Olhei e reconheci nosso bom amigo e ator Zózimo Bulbul. Foi tudo de bom. Depois marcamos um almoço na casa dele e o Naná, grande amigo dele, foi convidado e nos encontramos", prossegue.

Dois curumins. Gismonti fez então a proposta da viagem a Oslo. "Ele topou, falamos um pouco da ideia do disco: descrevi como dois curumins andando na floresta e vendo pântanos, clareiras, animais, rios, riachos, índios, frutas, umidade forte ou secura brava, floresta amazônica. Ele topou e viajamos pra Oslo com alguma coisa ensaiada e outra por ser criada e ensaiada durante a gravação. Fomos tocando, conversando, botando uma coisa aqui, outra ali e num certo momento o disco estava pronto."

O resultado "foi um choque", lembra Naná. "As pessoas perguntavam: O que é isso? De onde vem? Primeiro, porque era um músico tocando piano e violão, o que não era muito comum, de maneira que um não prejudicasse o outro, e depois a junção desses dois instrumentos com a percussão."

Naná só levou para o mundo de Gismonti o que já vinha fazendo em seus trabalhos solos. Com o sucesso internacional de Dança das Cabeças (leia acima), o percussionista foi convidado pela direção da ECM a gravar um disco solo. "Fazia tempo que queria tirar o berimbau da capoeira e fazer um concerto para berimbau e orquestra. O único que poderia escrever os arranjos era Egberto", lembra. E assim prosseguiu a parceria e a amizade, "duas cabeças dançando, sem pretensões e cheias de liberdade".

EGBERTO GISMONTI E NANÁ VASCONCELOS

Sesc Belenzinho. R. Padre Adelino, 1.000, 2076- 9700. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 32.

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