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Um piano de voz própria

Piotr Anderszewski fala sobre recitais em que toca Bach, Schumann e Janácek

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h14

Em meio à paisagem de inverno, o compositor vive sozinho. Um chalé nas montanhas, a mesa de madeira, a bebida quente... O cenário, na verdade, importa pouco. O músico, afinal, vive dentro de sua própria mente. Não desconhece a realidade à sua volta - mas só encontra nela sentido ao recriar, em música, de acordo com sua sensibilidade.

O personagem da cena é o compositor checo Leos Janácek e quem a sugere é o pianista Piotr Anderszewski. Poderia estar falando de si mesmo, na cena inicial do documentário a ele dedicado pelo diretor Bruno Monsaingeon. Caminhando na neve, próximo aos trilhos abandonados de trem, ele se afasta da câmera enquanto, em off, a voz confessa o desejo proibido do intérprete: abandonar os palcos para, dessa forma, manter-se fiel à música.

Anderszewski desembarca esta semana no Brasil, onde faz recital hoje e quarta na Sala São Paulo, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística. Se fala de Janácek, é porque escolheu o livro dois da série Em Um Caminho Abandonado como parte do programa que interpreta por aqui e é complementado pela Suíte Inglesa n.º 3 e a Suíte Francesa n.º 5, ambas de Bach, e a Fantasia em Dó Maior de Schumann.

Anderszewski chamou atenção de público e crítica pela primeira vez em 1990, quando abandonou o palco durante um concurso. Interpretava as Variações Diabelli de Beethoven e decidiu que sua leitura não estava à altura do que ele próprio era capaz de fazer, deixando boquiabertos jurados que já se preparavam para lhe entregar o primeiro prêmio. Mais de duas décadas depois, aos 44 anos, ele coleciona adjetivos. Os críticos parecem incansáveis em descrever suas interpretações como "reservatórios profundos de expressividade", repletas de "paixão vívida", "intensas e capazes de esgotar emocionalmente a plateia".

No documentário de Monsaingeon, Unquiet Traveller, o pianista fala da solidão do recital como uma sensação angustiante; dividir a cena com outros solistas ou com uma orquestra, continua, provoca o mesmo desconforto. "Na verdade, a tentação última, real, seria parar tudo, simplesmente me deitar no chão, ouvir o bater do meu coração e silenciosamente esperar que ele pare."

Na conversa com o Estado, na manhã da última quarta, ele reforça que, ali, falava simbolicamente, é claro. E que a música, ainda que traga dor e sentimentos complicados para o artista, é algo que o acompanha "desde sempre". "Não consigo lembrar do momento específico em que decidi me tornar um músico ou um pianista, nem sei se houve algo assim", diz. Nascido em Varsóvia, filho de pais húngaros e poloneses, ele estudou na França e nos Estados Unidos e hoje divide seu tempo entre Paris e Lisboa. Tem uma dezena de discos na bagagem - e sua gravação das Variações Diabelli, em CD e DVD, está entre as mais importantes da última década.

Ambiguidade. Por que unir Janácek, Bach e Schumann em um recital? "Não me pergunte isso", brinca. "Há uma lógica na junção das peças, mas não sei dizer qual é o processo racional que me leva a elas. Talvez a resposta que posso dar é: toco essas peças porque preciso tocá-las e isso acontece porque as amo."

A conversa, então, segue na direção de Janácek. É um dos autores preferidos de Anderszewski, apesar de ter escrito pouco para piano - preferia a ópera e a música sinfônica. "O que me fascina é a sua individualidade. Ele viveu na passagem do século 19 para o 20, mas não se encaixa nas convenções de nenhum dos dois períodos. Sua música era 'sua' música, entende? E ele seguiu às profundezas dessa busca por uma voz própria."

É assim que Anderszewski gostaria de ser visto como intérprete? Ele hesita, e o assunto passa a ser a obra de Bach. Ela foi escrita para cravo; qual o desafio de tocá-la em um piano moderno? "Essa questão já me preocupou mais. O que sinto hoje é que sua obra é tão grandiosa que o que importa mais é saber recriá-la de modo individual." E estamos, de novo, falando de individualidade, de uma voz própria, não?

Anderszewski ri. "É um processo muito ambíguo. Como intérprete, busco ser o mais fiel possível ao que o compositor escreveu. Mas não se trata só de tocar o que está escrito, isso é o básico. O desafio é ir além disso e recriar também as intenções do compositor. E é nesse momento que você, como intérprete, se coloca. Como atingir o equilíbrio? Não sei. Mas, de modo bastante subjetivo, posso dizer que o momento mais perfeito, para mim, é aquele em que a plateia sente que a música que você toca está sendo composta naquela hora."

Em sua discografia, há concertos de Mozart, música de câmara, Bach, Webern, Szymanowski, Beethoven. De Chopin, alguma coisa; e não há autores franceses. Ainda que ele não saiba definir o processo de escolha de repertório, ele concorda que há preferências claras. E a que gostaria de se dedicar agora? "Isso acontece de modo espontâneo. Posso estar assistindo a um concerto e, de repente, nasce o desejo de interpretar algum autor. E isso acaba de acontecer com Schubert. Ouvia uma orquestra tocar e algo despertou em mim, uma questão surgiu. E então sinto que preciso responder a isso."

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