Um pianismo feito de gingado e talento melódico

Linhagem nasceu com os pianeiros do final do século 19 e início do 20, como Ernesto Nazareth, continuou com mestres como Francisco Mignone e Radamés Gnattali, e parece renascer com Hercules Gomes

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h20

A moqueca de peixe baiana leva dendê e pimenta, é feita de excessos e espanta os desavisados; a versão capixaba dispensa o dendê e tem um sabor mais sutil, surpreende pela suavidade. Mal comparando, o pianismo brasileiro jamais se confunde com o tempero e a pimenta carregada de um Louis Moreau Gottschalk, que fez da verborragia pianística uma praga na segunda metade do século 19, quando faturou alto compondo variações em torno dos hinos nacionais de praticamente todas os imperiozinhos/republiquetas latino-americanas. A linhagem do pianismo brasileiro é sutil como a moqueca de peixe capixaba. Nasceu com os pianeiros do final do século 19 e início do 20, como Ernesto Nazareth, continuou com mestres como Francisco Mignone e Radamés Gnattali. E parece renascer com Hercules Gomes e seu Pianismo.

Neste surpreendente CD de estreia, ele mostra seis composições próprias e seis leituras de criadores do calibre de Radamés, Hermeto Pascoal e Edu Lobo. A surpresa dá-se em vários níveis. A primeira é seu toque diferenciado ao piano. Ele trafega longe das matrizes jazzísticas (gracias), prefere assumir maneirismos tipicamente brasileiros, como o de Nazareth. Por isso é bom começar ouvindo a última faixa, Odeon. Como manda a regra do bom pianista que não tem medo de esconder deficiências no uso do pedal de ressonância, Hercules o descarta. Tudo fica limpo, o staccato perfeito, o fraseado leve. A pitada final são as sutilezas de toque refinado típicas dos pianistas clássicos. Seria interessante ouvir um CD inteiro de Hercules tocando Nazareth. Mas, ao mesmo tempo, dá vontade de vê-lo tocando mais Radamés Gnattali depois de ouvir a malemolente Zanzando em Copacabana. Ou seria melhor vê-lo explorar mais o universo de Hermeto? Afinal, sua leitura de Viva o Rio de Janeiro estabelece uma ponte deliciosa entre Hermeto e Nazareth.

Bem, você já se encantou com Nazareth, Radamés e Hermeto. Agora é hora de curtir o sincopado irresistível da Dança do corrupião de Edu Lobo. Vá até o site do pianista (www.herculesgomes.com), lá está a partitura. Acompanhe, por exemplo, o efeito delicioso que proporciona o acompanhamento na mão esquerda em décimas. E a ausência do pedal de ressonância de novo faz a diferença.

Suas composições remetem ao pianismo brasileiro feito de malemolência e gingado com talento melódico - justamente a receita de Nazareth ao incorporar as síncopes das ruas cariocas numa escrita chopinesca em seus tanguinhos brasileiros. Entre elas, destaco a bela Helena, que parece uma barcarola em 6/8 com jeitão de Itamaracá (no improviso, sente-se uma pitada de jargão jazzístico). Toada, com acompanhamento na mão esquerda no ritmo das ondas da praia, parece coisa de Belém do Pará. No improviso, a mão esquerda se crispa em staccatos e de novo sentem-se pequenos tiques jazzísticos, na medida. Apucarana é contemplativa e Platônica é a faixa mais zen, com acordes evanescentes e belas melodias. Em Nação primeira o ostinato nos baixos combina-se com uma mão direita ligeiríssima, esperta, tudo sem pedal. Faltou falar de Duda no frevo, pequena gema, vertiginosa. Capiba se emocionaria. Nota 11.

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

EXCELENTE

HÁ MUITAS

SURPRESAS NO CD, A COMEÇAR PELO TOQUE DIFERENCIADO AO PIANO

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