Um personagem exótico que nos conquista aos poucos

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

27 Julho 2012 | 03h11

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Nome de exceção (entre poucos outros) de uma cinematografia cansada, o italiano Paolo Sorrentino não deixa de nos surpreender em seus filmes. Quem viu Il Divo, inusitado retrato da corrupção política, sabe do que se está falando. Em seu primeiro filme em inglês, Aqui É o Meu Lugar, Sorrentino mantém a sua coerência estética, marcada pelo desejo - e pela capacidade - de mostrar-se original e consistente.

Seu personagem é Cheyenne, vivido por um Sean Penn iluminado. Ele é um rock star americano, que vive afastado em Dublin, na Irlanda. Deve voltar para os Estados Unidos quando o pai morre. Lá descobre que o pai, com quem não falava havia 30 anos, alimentava a obsessão de encontrar o carrasco nazista que o atormentara no campo de concentração.

Eis aí duas figuras narrativas comuns, que se tornam inusitadas quando se encontram - o envelhecimento do astro pop e o Holocausto. Nenhuma das duas é tratada de forma convencional. E, quando se encontram, aí sim temos algo diferente, e que raramente vemos numa tela de cinema.

O próprio Cheyenne é uma figura exótica. Rosto maquiado, peruca, roupas góticas, vozinha mole, a aparência efeminada contrastam com o sólido casamento com Jane (Frances McDormand). Parece frágil, mas isso pode ser um engano. Seu estilo de vida parece desenhar-se no casarão pouco mobiliado em Dublin. Espaços grandes e vazios, explorados pela câmera de Sorrentino, que "escreve" em longos planos-sequência. Há esse tom lento do filme, esse fluir sem pressa e pacífico, que pouco faz adivinhar a turbulência emocional do personagem. A própria lentidão da fala de Cheyenne contrasta com a agudeza de suas (poucas) palavras.

Quanto a Sean Penn, seria redundância dizer que está brilhante? Talvez. O condenado à morte de Os Últimos Passos de Um Homem e o ativista de Milk não são maiores que este suave roqueiro andrógino desenhado por Paolo Sorrentino. Vamos nos acostumando a ele à medida que a história progride. No começo, pode causar mal-estar, até pelo aspecto físico, uma expressão acabada da decadência. Depois, vamos aprendendo a conhecê-lo e a compreendê-lo, até que, sem quase perceber, estamos torcendo por ele, mesmo que nos frustre de vez em quando. Cria-se uma empatia real com o personagem.

E, através desse elo da simpatia, mergulha-se nessa história estranha que, entre tantos temas abordados como o crepúsculo da fama, a dimensão da vingança e a busca de encontrar seu lugar no mundo (o título não é gratuito), faz também um comentário agudo sobre o comércio de armas nos Estados Unidos. É apenas uma triste coincidência, mas uma das cenas de Aqui É o Meu Lugar ganha estranha atualidade com a tragédia no cinema do Colorado.

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