Um perfil intimista de Ruth Cardoso

A indicação do autor do livro partiu do marido, Fernando Henrique Cardoso: "Ruth gostava dele, o perfil que ele escreveu na Vogue a emocionou e a fez sorrir; por meio dele, recuperou a cidade que lhe parecia perdida." Foi o sinal verde para Ignácio de Loyola Brandão iniciasse o trabalho de pesquisa até finalizar Ruth Cardoso: Fragmentos de Uma Vida (Globo), que será lançado hoje à noite, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Antropóloga (preferia ser tratada assim a primeira-dama), Ruth Cardoso morreu em junho de 2008, aos 77 anos. Foi uma das primeiras a perceber a emergência dos movimentos sociais que abrigavam diversidades, como feministas, étnico-raciais e de orientação sexual. E, na fase de montagem do governo FHC, idealizou o programa Comunidade Solidária.

"Este é mais um longo perfil do que uma biografia", explica Loyola que, araraquarense como a perfilada, demorou mas cultivou uma relação mais próxima com ela. "Retrato alongado, com detalhes que a maioria desconhece. A Ruth dos bastidores, a mulher por trás da catedrática, da doutora, da primeira-dama, da feminista."

De fato, o livro é recheado de boas histórias, tanto da formação profissional como curiosidades pessoais. É o caso, por exemplo, do momento em que Ruth conheceu o futuro marido, com quem se casou em 1953. "Conheci Fernando Henrique no vestibular da faculdade", conta. "Ele estava sozinho em São Paulo e queria cursar Filosofia e Direito. Sentado ao meu lado, íamos fazer exame oral. Matreiro, ele me comoveu, dizendo que não tinha tido tempo de estudar, me contou uma história dramática, de maneira que passei todas as fichas para ele. Aí começou. Todos o consideravam o bonitão, mas confesso que nem era tanto. Tão magrinho!"

A partir de suas entrevistas, Loyola descobriu também novas facetas da profissional. Para o historiador Jorge Caldeira, "Ruth teve a visão de que antropologia não era só para estudar a cultura dos outros, mas para estudar a sua própria cultura com estranhamento". Com isso, analisou movimentos sociais até então desprezados, ajudando a uma reformulação do setor de Ciência Política.

Do ponto de vista pessoal, Loyola reforça a fama de reservada. "Ela se abria pouco", comenta Regina Meyer, amiga íntima. "Ruth imaginava que entendêssemos seus subentendidos, silêncios. Nunca deixava ultrapassar certos limites."

Sobre o poder, Ruth era irônica: "Você entra em um espaço, cheio de figuras do primeiro ao último escalão, olha para o teto e comenta como quem não quer nada: puxa, não tem uma vaca neste teto? No dia seguinte, ao entrar no salão vai descobrir que alguém colocou uma vaca no teto."

FRAGMENTOS DE UMA VIDA

Globo (300 págs., R$ 44,90). Local: Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073,

tel. 3170-4033. Hoje, 19 h.

TRECHO

"Ruth e FHC refletiam...

... sobre o fato de um presidente ser um prisioneiro de luxo. "Às vezes, aos sábados andávamos a pé pelo parque, mas era complicado, a cada tantos metros, passávamos por um guarda com fuzil. Era uma vida aborrecida também para eles, rapazes jovens e pobres da periferia, houve o caso de dois que se suicidaram, espremidos pelo tédio. Não tinha graça nenhuma passear e dar com aqueles jovens, e ainda perceber a segurança que nos seguia a uma distância prudente. Não havia privacidade, era a sensação constante de estarmos vigiados."

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