Um pequeno e tímido raio de sol no final

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2011 | 03h07

O cinema dos Dardenne é expressão de um estilo, de uma escrita. Câmera na mão, rente aos personagens, determinado trabalho com cores, parcimônia com a música, certa secura. É, digamos ainda uma vez, um estilo, representação de uma visão de mundo. Ele está presente, mais uma vez, a organizar esse extraordinário O Garoto da Bicicleta.

Temos aí outra recorrência - a infância e seus problemas com o mundo dos adultos. E o vínculo com o neorrealismo. Como no filme de De Sica, também o garoto Cyrill terá problemas com sua bicicleta, seguidamente furtada. Ele a deixa à mostra, flertando com o desastre. É uma metáfora, como era em Ladrões de Bicicletas. Em De Sica, o mundo do trabalho, do qual o personagem vê-se excluído; nos Dardenne, a ligação com o pai (com a vida social), fugidio, improvável, em falta.

No mundo das carências absolutas, existe possibilidade de alguma redenção substitutiva? É o que tenta responder a figura suave de Cécile de France, a cabeleireira de bom coração. O andamento do filme pode ser resumido na utilização da música. Durante as passagens mais duras os acordes iniciais da orquestra no segundo movimento do Concerto do Imperador, de Beethoven, soam como ameaças. No final, a música continua, flui e o piano entra, como um pequeno raio de sol.

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