Um pensamento contra a corrente

Espírito independente, o filósofo checo Vilém Flusser, que viveu mais de três décadas[br]no Brasil, tem seu trabalho retomado em obras que indicam sua influência na cultura

Teixeira Coelho, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Três livros trazem à tona da memória, e da reflexão, a presença e as ideias do checo Vilém Flusser. E com ele, um pedaço da história da cultura no País. Flusser (1920- 1991) ficou em evidência entre o início dos anos 60 ? começo de sua colaboração com o Suplemento Literário do Estado (ele aqui chegara em 1940, fugindo do horror nazista que dizimou sua família judaica) ? e 1972, quando desistiu do Brasil (junto com tantos outros) e voltou à Europa.

A figura midiática de Flusser, ele mesmo então visto como inovador filósofo da mídia, gravou-se na lembrança de quem viveu o período. Suas aulas e conferências atraíam jovens entusiasmados e provocavam igual furor nos meios intelectuais estabelecidos embora esses se movessem, antes, pela rejeição a seu pensamento.

A trajetória de Flusser tem um paralelo com a de Oswald de Andrade. Ambos outsiders. A Universidade de São Paulo rejeitou Oswald por "insuficiência acadêmica" num concurso para professor (não era um "filósofo profissional", se disse). O mesmo rechaço sofreu Flusser por parte da intelligentsia posicionada, que o via como um não filósofo, um filósofo não sério.

Filósofos deveriam ser profissionais diplomados, assim como a ditadura queria os jornalistas diplomados: nivelar por baixo e controlar era e é a regra, impedindo que o autônomo apareça. O Brasil cartorial continua vivo. Flusser ainda deu concorridas aulas na Poli e na EAD mas, no início dos anos 70, com a USP reorganizada por departamentos (num processo seguido por galopante burocratização), saiu da universidade. Segundo uns, por não comprovar sua titulação acadêmica. Para outros, ele já decidira voltar à Europa e apenas desistiu da USP.

Flusser incomodava o meio porque, primeiro, não seguia a cartilha ideológica em vigor. A esquerda situava-o à direita. Tinha ligações com o Instituto Brasileiro de Filosofia, do integralista Miguel Reale (reitor nomeado da USP entre 1969 e 1973, momento mais negro da ditadura), e lia filósofos "não recomendáveis", como Heidegger. A esquerda disse, mais tarde, que era natural o repúdio a Flusser porque o momento era de cerrar fileiras contra a ditadura assassina, não se admitindo brechas conceituais.

Totalitarismo. De fato, ele era um espírito independente, não aceitava chamamentos à ordem unida. E igual independência mostrou ao desestimular os jovens a entrar para a guerrilha: não só a via fadada ao fracasso (e o preço seria alto demais em vidas e futuros) como punha em questão os ideais dos grupos organizados de inspiração militar que se opunham à ditadura, neles vendo os germes do que diziam combater: o totalitarismo. Demonstrou posição análoga na questão do Vietnã, o que lhe rendeu outras fortes polêmicas. Os estudantes acabaram chamando-o de reacionário, acusação que sempre o feriu.

Não aceito pelos que se seduziam pelos "aparelhos" e pelos que se entregavam à passividade, Flusser entendeu que sua missão como professor ? que incluiu também um período na Faap ? terminara. Quantos são capazes de admiti-lo, com ou sem razão?

O fato é que boa parte do pensamento que recusou Flusser sumiu de cena ao passo que muitas de suas ideias ainda estão atuantes, como as presentes em A Escrita ? Há Futuro para a Escrita? (Annablume, 180 págs., R$ 23,25), atual apesar dos 20 anos de idade. Seus temas ? o livro, o jornal, a poesia, as imagens, os códigos digitais ? são centrais para a cultura de hoje e dizem respeito a todos, não só à academia.

O livro desaparecerá? Tudo indica, ele responde. O livro seria um "estágio intermediário" e sumirá porque a escrita desaparecerá ? e isso porque uma nova consciência, liberta do código alfanumérico, está em gestação. As imagens são mais amigáveis para o conhecimento. De fato: hoje, quase todos os dados relevantes para a ciência, a medicina, as técnicas vêm primeiro pela imagem, inclusive a virtual. Depois entra a palavra.

As consequências são sérias. A escrita permitiu a emersão da consciência histórica e com ela os acontecimentos "tornaram-se possíveis", diz Flusser. A história, função da escrita e da consciência correspondente, também desaparecerá junto com a escrita ? outro tema difícil de aceitar pelo sistema das ideias feitas. A inteligência artificial (Flusser terminou A Escrita quando o uso corriqueiro do computador apenas se iniciava) "disporá de uma consciência histórica que superará a nossa".

E já que essa inteligência fará e terá uma consciência histórica melhor que a nossa, ficaremos livres para nos concentrarmos em outras coisas. Em quê? Na experiência concreta do presente, por exemplo ? e com isso Flusser se unia aos pensadores pós-modernos que desde meados dos 70, muito antes da queda do Muro, promoviam uma virada da reflexão filosófica ainda hoje não deglutida pela ortodoxia.

Seu pensamento é claramente de tom ensaístico. Sacações (que o pensador norte-americano Charles Sanders Peirce chamava de abduções) são-lhe mais importantes do que deduções rigorosas. Flusser era um adepto da teoria do jogo e do homo ludens, e esse jogo ele praticava em sua própria reflexão, como perceberam os filósofos profissionais dos anos 60.

Aqueles, porém, não eram tempos propícios ao jogo com as ideias. Nem os de hoje, falando nisso. Jogar com as ideias significa exercê-las em laboratório e estar sempre pronto a revisá-las, algo com frequência inaceitável pelos grupos instituídos.

Nem tudo, no entanto, é tragável em Flusser (como em ninguém). Exemplo: sua teoria da cultura para o brasileiro, que ele via como distante da Velha Cultura (fisicamente, para começar: o Brasil ficava muito longe) e por isso mais apto a uma "nova maneira de vida humana, digna". Teoria ingênua demais, hoje como à época. Fenomenologia do Brasileiro foi o último livro escrito por Flusser no Brasil, início dos anos 70, embora publicado só em 1998. Dele trata Eva Batlickova, em A Época Brasileira de Vilém Flusser (AnnaBlume, 152 págs., R$ 30), que aborda também outros livros de Flusser, como A História do Diabo e Língua e Realidade.

A ideia de que o Brasil estava distante da historicidade, da economia e da política "que manda no "primeiro" mundo" já era uma ideia exótica naqueles mesmos anos em que a ditadura controlava tudo, ela que fora gerada numa geopolítica pensada no Primeiro Mundo para o mundo aqui de baixo, em tudo já imerso na economia global, como agora.

Barbárie. O Brasil já se aproximara demais da Velha Cultura e há muito a barbárie comia solta nas ruas sem qualquer dignidade. Como hoje. A liberdade com as ideias tem seus riscos. Mas é sempre melhor corrê-los do que vergar-se ao pensar formatado.

O livro de Norval Baitello Jr., A Serpente, a Maçã e o Holograma (Paulus, 120 págs., R$ 18), faz sua ampliação dos estudos sobre Flusser ao buscar formular, a partir dele mas não só dele, uma outra Teoria da Mídia, preocupação constante numa área há tempos insatisfeita com os modelos tradicionais.

Neste, um dos capítulos mais interessantes é A Gula de Flusser: A Devoração da Natureza e a Dissolução da Vontade, sobre artigo do checo para o Suplemento Literário em 1963 e que contém os tópicos de uma teoria das relações entre a cultura, a natureza e o lixo que é em tudo muito atual.

Flusser desistiu do Brasil em 1972. Por algo terá sido. O Brasil desistiu de Flusser? Em parte sim. Ele estava à frente do tempo e contra o tempo. Isso pesou. E pesa. É difícil e inglório pensar a contrapelo.

TEIXEIRA COELHO É PROFESSOR DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE HISTÓRIA NATURAL DA DITADURA (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS LIVROS.

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