Um pedacinho de tecido revolucionário

Para uma jovem do século 21, vestir uma minissaia deve parecer a coisa mais normal do mundo. O que poucas sabem é que aquele pedacinho de tecido que deixa as pernas à mostra revolucionou o mundo da moda nos anos 60 e 70, causou polêmica, fez parte da liberação feminina, foi condenado pela igreja e, sem dúvida, provocou muitos homens.Não há dúvidas de que durante o século 20, houve um frenético sobe e desce das saias, mas quem foi o verdadeiro responsável pela aparição das minis? Apesar de os franceses atribuírem o crédito aos estilistas Pierre Cardin e Courrèges, quem transformou a idéia em moda, comercializou-a e popularizou-a foi a inglesa Mary Quant - uma estreante no início dos anos 60. Quando em 1966 perguntaram a Mary se ela achava a minissaia uma indecente provocação, respondeu: "A mini é sexy, mas jamais obscena. A moda é feita para provocar o desejo. Se não existe sexo, não existe moda."Ela surgiu no momento certo, juntamente com os Beatles, no início de uma década dominada, no mundo inteiro, pelo poder jovem. Por outro lado, essa ousadia da garota papo-firme, como cantava Roberto Carlos, em mostrar além dos joelhos, causou protesto em todos os cantos do planeta. O furor aumentou ainda mais no final dos anos 60, quando a mini virou micro, cobrindo apenas a calcinha, quase deixando de ser saia para virar uma faixa.A cada bainha feita mais acima, uma nova reação, mais forte, surgia. A Academia Francesa de Letras, por exemplo, condenou, em seus estudos de lingüística, o prefixo mini como "anglicismo". Em 1967, a direção do Colégio Estadual Júlio de Castilho, em Porto Alegre, proibiu a entrada de moças de minissaia em suas dependências. As alunas fizeram protestos ruidosos, claro. Na mesma época, o Osservatore della Domenica, órgão do Vaticano, condenou o uso da pequena peça, afirmando que a corrida para despir o corpo da mulher, aparentemente para mostrar sua beleza, na verdade visava a degradá-la.Para muitos, a minissaia era mesmo coisa do diabo. Por causa de seu apelo sexual, ela foi proibida pelos governos de vários países, como China e União Soviética. No Líbano, só foi liberada em 1969, por uma determinação do ministro do Interior. No Brasil, uma das manifestações mais violentas ocorreu em 1970, no município de Santo Antônio de Pádua, no Rio, quando um padre, respaldado pelo delegado da cidade, ameçou carimbar a marca da delegacia no corpo das mulheres que entrassem na igreja de minissaia.Até no mundo da moda ela foi condenada à morte, em 1970, pela Maison Dior. Mas, no ano seguinte, reapareceu nas coleções de verão de estilistas parisienses. Polêmica e sensual, a minissaia não apenas fez parte de uma revolução social e cultural como, depois do elipse nos anos 60 e 70, continua reaparecendo eventualmente, ou quase sempre, principalmente em países tropicais como o Brasil.

Agencia Estado,

14 de novembro de 2000 | 20h47

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