UM PASSEIO SONORO A BORDO DO SIGNUM

Na Alemanha ainda há empresas que patrocinam quartetos de cordas de forma permanente. Uma delas, que também atua no Brasil há muitos anos, bem poderia realizar aqui trabalho semelhante. Por isso, faço questão de dizer seu nome. É a Bayer. Ela mantém o Signum Quartet dentro de seu projeto cultural stART, ao lado da Rádio BBC 3 inglesa, que os incluiu em seu New Generation Artists. Este é o tipo da ação cultural que permite um trabalho inteiramente livre de qualquer pressão.

O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h08

O quarteto formado em 1994 por Kerstin Dill e Annette Walther (violinos), Xandi van Dijk (viola) e Thomas Schmitz (violoncelo) acaba de lançar o CD Quartettsätze (selo Capriccio), ou movimentos de quarteto. É um passeio fascinante por obras em um movimento ou fragmentos de quartetos inacabados. O gênero foi usado pelos compositores ao longo do tempo como laboratório de experimentação. Por isso há resultados surpreendentes e injustamente esquecidos.

O Signum não escapa da inclusão de duas peças que frequentam toda gravação de quartettsätze: Crisantemi de Puccini e Serenata Italiana de Hugo Wolf. Você pode até se encantar com a exímia leitura que eles fazem destas peças, mas é melhor concentrar-se nas demais, que ocupam 52 dos 64 minutos do CD.

As duas mais inesperadas são assinadas por Carl Orff (1895- 1982) e Anton Webern (1883- 1945). O primeiro assina um Quartettsatz. Orff viveu 86 anos e ficou voluntariamente marcado por sua adesão ao nazismo e as cantatas cênicas adoradas pelo Terceiro Reich que até hoje nenhuma multidão rejeita (Carmina Burana, não por acaso, é de 1937). Quem não se lembra delas, até em comerciais de TV? O pior, pessoalmente, foi ter usado um resistente morto ao nazismo como ferramenta de absolvição no pós-guerra.

Pois antes de tudo isso, Orff, ainda jovem estudante, em 1914, aos 19 anos, ensaiava a escrita camerística com um movimento de quarteto que a certa altura faz um tributo a Debussy, um de seus ídolos de juventude. É sua última obra convencional, antes de assumir a postura que o tornou famoso, para bem e para o mal.

A outra surpresa, também devaneio juvenil, é Langsamer Satz, ou movimento lento, de Anton Webern, o mais radical dos compositores da segunda escola de Viena, do início do século 20. Ele tinha 22 anos em 1905. E passou cinco dias idílicos com sua amada Guilhermina Mörtl. No seu diário, escreveu: "Passeamos pelas florestas, como num conto de fadas. o eco da sinfonia da floresta... passeamos ao luar pelo campo florido... o que aquela noite me concedeu irá me emocionar por longo tempo". Esqueça o vanguardista atonal. Quem canta aqui é o Webern romântico.

É interessante a sequência de movimentos de quarteto, juntando o Quarteto n.º 9, em um só movimento, do contemporâneo Wolfgang Rihm, de 1993, com o célebre de Schubert, de 1820. O alemão Rihm, de 59 anos, um dos mais talentosos criadores atuais e menos tocado por aqui do que merece, tem desmedida paixão por Schubert. Seu encorpado Quartettsatz de mais de 20 minutos emula o ambiente camerístico de Schubert, com suas mudanças bruscas de tempo e frases assimétricas. Caminhos que Schubert tateou em 1820, depois de ter escrito uma dezena de quartetos convencionais. Ficou a meio caminho, e por isso deixou-a inacabada. Mas, nos oito anos seguintes que lhe restavam de vida, compôs os formidáveis últimos quartetos, obras-primas do gênero.

O Signum Quartet acentua os contrastes, os temas esticados e a escrita nervosa de Schubert. E estabelece inesperados pontos de contato com a obra de Rihm, que está anos-luz de mera clonagem do vienense, mas exibe um certo halo ou aura schubertiana, enquadrados em técnicas expandidas e linguagens contemporâneas.

É bem-vinda, também, a inclusão de uma deliciosa vinheta do norte-americano Charles Ives (1874-1954) - um pioneiro da música do século 20. / J.M.C.

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