Um panorama da cena poética

Série em 15 volumes faz retrato do gênero no País, das raízes à contemporaneidade

MOACIR AMÂNCIO, AUTOR DE ATA (POEMAS REUNIDOS, RECORD), YONA, O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA (NANKIN/EDUSP), PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

ROTEIRO DA POESIA

BRASILEIRA - 15 VOLUMES

Direção: Edla Van Steen

Editora: Global

(160-323 págs., R$ 32-R$ 42)

MOACIR AMÂNCIO

O Roteiro da Poesia Brasileira, antologia em 15 volumes, direção de Edla van Steen, que já possuía em seu crédito de importante trabalho prestado à cultura deste país as séries de Melhores Poemas e Melhores Contos (também pela Global), provoca de saída algumas considerações sobre esse tipo de empreitada. A série começou a ser publicada em 2006 e foi concluída em 2011. Edla permanecia no comando, como superautora, enquanto cada volume era confiado a um especialista no autor ou na época.

Um projeto abrangente como esse não poderia passar sem registro. Os volumes pretendem cobrir todos os "períodos" de produção poética no território que se convencionou chamar de Brasil. O primeiro lugar-comum nesses casos é procurar as omissões, insignificantes ou não. Onde está o gaúcho Ney Duclós? Augusto de Campos? O Dirceu Villa? - ver pág. 163, Anos 90. Sempre faltará alguém, a opinião dos críticos que prepararam cada volume se coloca em xeque pelas próprias opções, mas esse tipo de questionamento leva a caminho sem saída. Hipotéticas falhas do gênero (esquecimentos, preferências ou inclusões, enfoques equivocados) só podem ser "corrigidas" pelo tempo e por outras antologias, sempre segundo a gosto e a atitude crítica do novo antologista e sua época.

Os reparos são um fato mais ou menos constante, basta citar o excepcional Revisão de Sousândrade (Perspectiva), de Augusto e Haroldo de Campos, que coloca não só o romantismo como a poesia brasileira sob ângulo renovador. Seria injusto não lembrar um antecedente no gênero, a antologia da poesia brasileira feita pelo poeta e crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, que permanece como um exemplo imponente de erudição e seriedade intelectual, um conjunto que se tornou referência e se mantém interessante, embora tenha sido publicado em 1967. Um marco norteador. E que permite um espelhismo produtivo: Silva Ramos deixou de lado Bento Teixeira e abre a antologia com Gregório de Matos, enquanto Ivan Teixeira mostra o autor da Prosopopeia, perseguido pela Inquisição por ser judaizante, como um poeta inaugural das terras brasílicas, depois de José de Anchieta.

Para Silva Ramos, o poema de Bento Teixeira não passa de "descolorida imitação camoniana", pertence ao quinhentismo, ficou fora pois a antologia começa pelo Barroco. Ivan Teixeira atualiza a visada ao dizer que o texto de seu xará só pode produzir "sentido literário se for apreciado como derivação paródica do poema de Camões", explorando então outra picada crítica. Cuidaram dos clássicos: Ivan Teixeira (inicia a série), com Raízes (transplantadas, só para lembrar), Domício Proença Filho (Arcadismo), Antonio Carlos Secchin (Romantismo), Sânzio de Azevedo (Parnasianismo), Lauro Junkes (Simbolismo), Alexei Bueno (Pré-modernismo) e Walnice Nogueira Galvão (Modernismo).

Mas o terreno natural da polêmica fica na segunda parte da coleção, que dedica um volume para cada década a partir dos anos 30 até 2000, ou seja, mais da metade do total. A população cresceu muito e isso se reflete na produção literária, em número, mas será que se justifica a prodigalidade? Será que a estatística fica acima dos critérios qualitativos? São perguntas óbvias. De qualquer modo, para os poetas iniciantes ou obscuros, a publicação teria efeito consagrador por aparecerem ao lado dos "grandes nomes". Há confirmações, certas descobertas, dúvidas. Porém se deve levar em conta que no conjunto temos um panorama da poesia contemporânea, cada volume dedicado a uma década equivale a uma revista do período, embora póstuma.

A abertura para o debate é ponto a favor. Assim como Ivan Teixeira procura outros caminhos para entender a poesia inicial desta terra, André Seffrin, ao falar dos anos 50, tenta contribuir para a solução de um nó do tempo: "Antologias que reuniram a nova geração entre as décadas de 1950 e 1970, em sua maior parte, presas às camisas de força dos programas de vanguarda: Geração de 45, Concretismo, Neoconcretismo, Práxis, Tendência, Processo, etc." O que fazer com um autor como o pernambucano Mauro Mota, uma das "vítimas desses rótulos"? É o que legitima a crítica o passar a limpo a alteração dos pontos de vista e eventuais iluminações. Temos visão geral variada, como na antologia de Silva Ramos, com todos os méritos.

Neste primeiro instante, a edição do roteiro torna-se recuperação histórica e, mais importante, da própria atualidade, com poetas e poemas selecionados pelas antenas de antologistas como Ivan Junqueira, Luciano Rosa, Seffrin, Pedro Lyra, Afonso Henriques Neto, Ricardo Vieira Lima, Paulo Ferraz e Marco Lucchesi, que cuidam das décadas a partir de 30.

O principal objetivo talvez seja atender ao público estudantil - o que não é pouco. Sobretudo os estudantes encontrarão aí dezenas de autores que escreveram e continuam escrevendo numa sequência secular. Em vez do aparente caos da internet (onde se encontra o acervo indiferenciado, no caso, a história viva, ou sem referência), o delineamento das perspectivas históricas.

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