Um paladino contra a estética pós-moderna

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Estilo. O gato acima, de 'Eu Sei um Montão de Coisas', é uma das ilustrações do artista. Ela conserva a autonomia da forma e da cor, uma de suas características mais marcantes.

 

 

Embora tenha frequentado o curso noturno do Pratt Institute e a Art Students League, Paul Rand foi um autodidata. Começou pintando placas com os preços das mercadorias da mercearia do pai e comprando revistas europeias de design, conhecendo, então, o trabalho de Moholy-Nagy, sua primeira boa influência. Outro impacto foi descobrir a estética do Sachplakat (poster-objeto), criado por Lucian Bernhard (1883-1972) como uma resposta protominimalista ao excesso decorativo do poster art nouveau. Foi por essa descoberta que ele decidiu "eliminar" o que lhe parecia excessivo em sua identidade, trocando as muitas letras de seu nome judeu, Peretz Rosenbaum, por Paul Rand, para que prenome e sobrenome ficassem simetricamente desenhados em quatro letras - sua primeira identidade corporativa, como observou um estudioso.

Rand chegava a ganhar US$ 100 mil por um simples logo - e ele criou vários, da Westinghouse ao da empresa de computadores NeXT. Perfeição estética e funcional eram seus mandamentos. Uma identidade corporativa deveria funcionar mesmo com letras mutiladas ou cortadas, desde que conservada a autonomia da forma e da cor. Foi exatamente por discordar da estética pós-moderna, que ignora esse mandamento, agregando imagem e letra, que Rand pediu demissão da Universidade de Yale em 1992, rompendo com mestres dessa linha estética, que considerava frívola.

Recluso e independente, sua imagem de homem solitário é a mesma do Pequeno 1 de seu livro infantil de 1962, que sente a falta de amigos e tenta inutilmente se enturmar, sendo repudiado por duas peras, três ursos de pelúcia, quatro abelhas e oito livros de capa dura, todos ocupadíssimos para dar atenção ao pobre número 1, simulacro de patinho feito.

Eu Sei um Montão de Coisas, o segundo dos quatro livros que produziu com a mulher Ann Rand, convida o pequeno leitor a "entrar" na história na primeira ilustração, um espelho com um rosto incompleto. É dele a ilustração do gato acima, deitado sobre um tapete, de tons baixos para conter o verde expansivo do bichano. Rand simula no livro uma página rasgada para mostrar uma picareta escavando um buraco, concluindo sua história com um garoto cujo corpo é construído de letras.

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