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Um país vulnerável

O clima depois dos atentados a bomba em Boston revelaram quanto os Estados Unidos se tornaram vulneráveis. O fato de nenhum grupo ou pessoa ter assumido a responsabilidade pelo ato fez o país mergulhar nas profundezas do pânico e da paranoia.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h11

Teria sido a Al-Qaeda? Esse foi o primeiro pensamento que cruzou a mente de todos, é claro. Desde os ataques do 11 de Setembro, os Estados Unidos não sofreram nenhum ataque terrorista bem-sucedido da Al-Qaeda ou de algum grupo militante islâmico. Isso parecia incrível, já que a perseguição americana a esse grupo no Afeganistão e no Paquistão foi implacável e sangrenta. E, sendo uma democracia, os Estados Unidos são vulneráveis em inúmeras frentes. O sentimento após Boston foi de que o tempo realmente se esgotou. A suspeita de que algum grupo islâmico radical havia finalmente se vingado foi fortalecida pelo fato de que os atentados em Boston ocorreram no Dia do Patriota, que é o aniversário das primeiras duas batalhas da Guerra Revolucionária dos Estados Unidos.

Mas, alto lá, disseram algumas pessoas. O fato de os atentados terem ocorrido no Dia do Patriota significaria que os perpetradores não eram muçulmanos radicais de algum lugar distante, mas cidadãos americanos vivendo no país. O atentado ao Federal Building em Oklahoma City, conhecido como o Oklahoma Bombing, que destruiu a vida de 168 pessoas e feriu centenas, ocorreu quase exatamente no Dia do Patriota há 18 anos. Os três homens responsáveis por aquela chacina em massa eram terroristas americanos natos, dedicados à sua própria guerra particular aos impostos e ao controle de armas.

Essa última teoria parecia fazer mais sentido. Terroristas estrangeiros, quando atacam, lançam seus ataques em parte como instrumentos formidáveis para levantar fundos. Eles precisam deixar seus alvos saberem quem são para semear o terror, esperando com isso obrigá-los a atender suas demandas políticas. Mas também precisam projetar uma imagem de poder e sucesso para inspirar financiadores ricos.

Os terroristas domésticos, por sua vez, raramente parecem reclamar a autoria após seus atos de destruição. Ted Kaczynski, conhecido como Unabomber -, era uma espécie de ecoanarquista - esperou 17 anos para assumir a responsabilidade pelas bombas que enviou por correio e mataram três pessoas e mutilaram muitas outras. Timothy McVeigh, o líder dos três homens responsáveis pelo Oklahoma Bombing, foi apanhado pouco depois da explosão das bombas, por isso é impossível saber se teria alardeado que ele, ou algum grupo a que fosse afiliado, era o autor. Mas passou algum tempo até seus cúmplices serem apanhados, e nenhum deles, nem ninguém mais, que compartilhasse seus valores distorcidos jamais reclamou a responsabilidade pelo ataque.

De mais a mais, o fato de terem sido usadas bombas e não revólveres pode ter sido simbólico. Poderia ser uma maneira de os adversários do controle de armas demonstrarem que, como gostam de dizer, "Revólveres não matam. Pessoas sim".

Mas, alto lá, dizem algumas das mesmas pessoas. Quem montou aquelas bombas em Boston talvez não pertença a um grupo político. Ele - é geralmente, mas nem sempre, um homem - talvez nem tivesse uma agenda política; direita, esquerda ou algo entre as duas. Talvez seu objetivo fosse, não protestar contra o que, em sua imaginação alucinada, havia se tornado um abuso de liberdade. Talvez seu objetivo fosse matar e mutilar o máximo de pessoas que pudesse pelo simples prazer doentio da coisa.

Nada poderá consolar alguém que tenha tido algum tipo de relação com a chacina em Boston, mas a ideia de que o ato teve algum tipo de sentido - por mais doentio e distorcido que possa ser - seria uma espécie de conforto para o país. Se for um grupo terroristas estrangeiro, nós saberemos qual foi e tomaremos medidas para apanhar, punir, evitar que os responsáveis voltem a atacar.

Mas se o culpado foi um indivíduo solitário - e escrevo este texto na tarde de quarta-feira -, a coisa parece quase sem esperança. De algum modo, nós associamos atentados a bomba à violência política, e execuções a tiros à violência individual. Os assassinos em massa de Virginia Tech, Aurora, Colorado, Newton, Connecticut - e incontáveis outros lugares por todo este país - são psicoses aleatórias da sociedade, eclodindo de maneira súbita e imprevisível. Eles ou se matam, ou são quase imediatamente apanhados.

Um assassino em massa com bomba, porém, que não se mata, que se safa, que claramente investiu um bocado de tempo em seu plano de destruição, é algo completamente diferente. Num mês em que um juiz de paz do Texas foi acusado de assassinar, a sangue frio, um promotor público do Texas e sua mulher; em que um homem do Mississipi foi acusado de enviar cartas com veneno ao presidente Obama e outros políticos - num momento como esse, o indivíduo parece mais perigoso do que qualquer grupo. E, na esteira da derrota fragorosa da legislação de controle de armas no Senado, parece que o grupo - a comunidade, a sociedade, o próprio Estado - já não consegue controlar o indivíduo.

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