Um país longínquo

No fim da Copa da Alemanha, em 2006, o Fernando Calazans e eu fizemos um juramento solene: Copas, nunca mais. Não cumprimos nossa promessa. No meu caso, a perspectiva de conhecer um país novo, assistir ao melhor futebol do mundo e ser pago para isso foi, mais uma vez, irresistível. Minha promessa pressupunha falta de condições físicas para enfrentar outra Copa. Não era o caso do Calazans, que é um jovem. Cobrir Copas é muito bom, você vê os jogos dos melhores lugares do estádio, mas chegar aos melhores lugares geralmente envolve lances e lances de escadas e rampas intermináveis. Tudo é compensado pelo futebol, pelo prazer da viagem, pela convivência com os companheiros de cobertura, mas não é para septuagenários. Não me arrependo de ter descumprido a promessa, no entanto. Minhas coronárias se portaram muito melhor, na África do Sul, do que a seleção.

Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2010 | 00h00

É claro que as melhores Copas são as que o Brasil ganha, mas esta foi das boas. Jogadores e times de quem se esperava muito fracassaram, como Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Inglaterra e Itália, mas surgiram jovens como o alemão Thomas Mueller e times sem tradição jogando um futebol respeitável, e a final foi entre duas das seleções nacionais mais vencedoras dos últimos tempos, quer dizer que não se pode falar em injustiça.

O Brasil resumiu-se numa série de dúvidas em torno da personalidade do Dunga. Nunca se ficou sabendo o que era birra, o que era convicção e o que era apenas o melhor que ele conseguiria fazer com o que tinha, no comportamento do Dunga. Algumas das suas apostas não deram certo, outras deram, na média ele fez um time vencedor que perdeu o jogo que não podia perder. O que surpreendeu na derrota do Brasil para a Holanda foi o que menos se esperava de um time treinado pelo Dunga, a apatia.

A África do Sul foi uma experiência, só não me perguntem de que tipo. O país é lindo, a gente amabilíssima, mas sei lá. Tem-se a impressão de que estão à beira de alguma coisa, só é difícil saber se é uma nova sociedade multirracial feita em cima do ódio de gerações, ou de uma nova convulsão. Basta uma visita ao magnífico Museu do Apartheid para se ter uma ideia do que precisará ser esquecido para o país se reconciliar com seu passado.

As sete Copas que cobri já me levaram do México e dos Estados Unidos ao outro lado do mundo, a Coreia e o Japão. Não sei se vai dar para cobrir a Copa de 2014. Ela se realizará num país que, nos próximos quatro anos, ficará cada vez mais longínquo. Mais longínquo, para mim, do que o Cabo da Boa Esperança. Acho que essa não vai dar mesmo, Calazans.

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