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Um país de repetições?

Eu vivi os cinquenta anos em cinco de JK, o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, a resistência dos coronéis a Jango, o parlamentarismo de ocasião, o golpe e a ditadura militar e uma alvissareira abertura democrática

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 03h00

Numa vida longa, recordações se misturam a fantasias, miragens e pesadelos. Acabam-se os projetos...

Talvez nisso resida a irritante ambiguidade dos idosos, pois envelhecer é descobrir que abotoar uma camisa é mais complicado do que explicar uma época, um livro ou um regime político.

O pouco conscientizado preconceito cósmico contra os velhos tem raiz na consciência da fragilidade física, combinada a uma enorme e orgulhosa resignação diante do fim da vida – uma dimensão que inexoravelmente todos os idosos são forçados a vivenciar. 

Como um filme meio terminado, a vida longa desbota pessoas e circunstâncias, mas permite enxergar, com nitidez de lupa, repetições, reprises, retornos – os ossos dos mortos. O verdadeiro caráter de culturas, sociedades e pessoas. Nela, se enxergam melhor o falso, a ignorância e a hipocrisia – esses companheiros do ser e estar humanos.

Como é que fui gostar daquele poeta afogado no seu sentimentalismo barato? Como é que eu fui simpático àquela ideologia política ultrarreducionista? Onde eu estava com a cabeça quando fui enganado e, pior que isso, enganei a mim mesmo escondendo minhas intenções, desejos e invejas? Como eu não saquei que a mentira não tem desculpa e que não se deve mentir para ninguém e, sobretudo, para “desconhecidos” – aqueles para os quais o mentir vira um enganar malandro? 

A culpa é minha ou, como tantos outros, sou apenas mais uma vítima de um enredamento sociopolítico da pior qualidade? 

Os velhos são condenados à repetição. 

Eu vivi os cinquenta anos em cinco de JK, o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, a resistência dos coronéis a Jango, o parlamentarismo de ocasião, o golpe e a ditadura militar e uma alvissareira abertura democrática. Achei que o governo petista (que, como dizia Lula, não podia errar) ia efetivamente mudar, como indubitavelmente fez o de FHC com o Plano Real (gerador da tal herança maldita...). 

Meus enredos retornam, meus temores são antigos. Minha esperança de ver o mundo público brasileiro livre de formalismos legais obviamente contraditórios e cheios de múltiplas hipocrisias, hoje expostas digitalmente, é diariamente arrasada. 

Será que é o meu isolamento niteroiense que me faz ver fantasmas na “política”? Esta pobre idealização nacional do poder exclusivamente como vantagem pessoal e força; como capacidade de desordenar, fingir e corromper? Será o “mandonismo”, traço que (como dizia a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, uma pensadora do Brasil onde não cabem mulheres) estaria hoje mais agudo do que nunca, confirmando a nossa repetitiva vocação aristocrática e monárquica que sempre volta?

Estou farto de ver os mesmos filmes. Liberais abrem portas para protoestalinistas, xerifes viram bandidos e pilantras viram heróis. No resfolego do poder à brasileira, todos inovam, repetindo velhos chavões. 

Thomas Mann dizia que a repetição abole a história. Repetir é abolir a diferença entre o ser e o ter sido. As repetições estão impressas nas compulsões e dependências. Elas reiteram e revelam velhos e mesquinhos modos de ser, ter e estar. 

No Brasil, a racionalidade burocrática transforma-se em papeladas ritualísticas. Max Weber falava da burocracia como uma jaula de ferro, na qual todos estavam enclausurados, mas no Brasil, ela é uma gaiola de ouro da qual escapam, por meio de malabarismos jurídicos, criminosos agasalhados pela “política”. A nossa resistência à universalidade e ao anonimato da lei é imoral. 

A reação criminosa do governo à pandemia é um exemplo perverso do peso das nossas hierarquias. Nela, “superpessoas”, conforme digo no meu velho ensaio sobre o “você sabe com quem está falando?”, repetem os privilégios de família e compadrio. O mandonismo nega a vacina universal em favor da simpatia interesseira ou ocasional. Morre meio milhão por vezo da danação do supremo mandatário do País.

Ser fiel a valores democráticos é um sinal de inferioridade – de “babaquice” –, conforme ouço até hoje. O resultado do privilégio de estar “por cima das normas”; de correspondê-las às suas conveniências é a marca do autoritarismo nas sociedades de republicanismo formal. Repúblicas que se recusam a discutir honestamente o protagonismo dos resíduos de fidalguia e da escravidão em confronto com a imensa tarefa imposta pelo igualitarismo.

Não deve espantar que estes sistemas se caracterizem pela repetição! Pela intrusão de ‘aristocratismos’ nos seus ‘republicanismos’ e vice-versa. O resultado é o populismo malandro e os absolutismos cujos governos têm uma linguagem para os seus seguidores (“Deus acima de tudo, a pátria acima de todos” e, é claro, “eu controlando tudo!”) e outra para o público externo. Aí está o centro do despotismo repetitivo de repúblicas mal-acabadas, conforme ensina Raymundo Faoro.

 

P.S.: Volto, se os planos não forem modificados, na primeira quarta-feira de agosto. Mais velho, mais grato, mais curtido e mais incerto.

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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