Um país chamado lar

De sua casa à beira do Hudson, Toni Morrison revê a América dos anos 50

Hillel Italie/AP Grand View-On-Hudson, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h08

O Rio Hudson se estende como o sol nos fundos da casa de Toni Morrison, iluminado e infinito nessa tarde estranhamente cinzenta para a estação. "É interessante e calmo, e muda constantemente", conta Toni.

A ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura vive nesta casa desde o fim dos anos 70. O compromisso dela com o imóvel foi posto à prova quando a casa pegou fogo em 1993, um incêndio que destruiu tudo. Mas ela reconstruiu a casa e tornou-a ao mesmo tempo espaçosa e íntima, com estantes de livros e quadros, plantas e esculturas, um pátio e um atracadouro particular.

Aos 81 anos, Toni mostra um temperamento informal, com uma risada fácil. Poderia ser tomada por uma vizinha pronta para a jardinagem até vermos as fotos de Toni ao lado de James Baldwin e Gabriel García Márquez, entre outros, ou descobrirmos que a mesa de madeira perto da cadeira dela foi um objeto de cena na adaptação para o cinema de Amada (Bem-Amada, nas telas), seu romance que ganhou o Prêmio Pulitzer.

Toni não precisa se preocupar com o reconhecimento. Os jurados do Nobel a honraram e o mesmo fez Oprah Winfrey, cuja decisão de incluir as obras dela em seu clube do livro ajudou os romances da autora a venderem milhões de exemplares. Dois nomes envolvidos na disputa presidencial, Barack Obama e Hillary Clinton, procuraram o seu apoio em 2008, e Obama deve em breve presenteá-la com uma Medalha Presidencial da Liberdade, a mais elevada honraria oferecida a um civil nos EUA. A sua peça Desdêmona será encenada em Londres, nos Jogos Olímpicos.

A lenda fica com as glórias; a pessoa real trabalha. Toni Morrison tem um novo romance, Home (Lar, em tradução livre), a história de Frank Money, um traumatizado veterano da Guerra da Coreia que retorna aos EUA nos anos 50. Faz tempo que Toni usa a ficção como uma história particular, seja envolvendo a Guerra de Secessão (Amada), os anos 20 (Jazz) ou o período colonial (Compaixão).

Com Home, ela queria acrescentar uma dose de verdade sobre a guerra e o racismo à narrativa. "Minha intenção era tirar aquele véu dos anos 50", lembra. "Dizem que foram bons tempos, o pós-guerra, as pessoas tinham empregos e a TV estava cheia de histórias felizes." Como Amada, Song of Solomon e outras obras de Toni, o livro é uma jornada e um acerto de contas. Money vai de ônibus do norte da costa do Pacífico até Chicago e então até sua temida cidade natal, Lotus, Geórgia, "o pior lugar do mundo", onde "ninguém sabia nada nem queria aprender coisa nenhuma". Nessa viagem, ele se depara com a violência, a segregação e a arbitrariedade da polícia.

Toni, nascida em Ohio, nunca morou na Geórgia. Mas, para escrever Home, ela recorreu às histórias contadas pelo pai, nascido lá, e às próprias memórias do sul quando ela estava na Universidade Howard, em Washington. Depois de se formar, trabalhou como editora da Random House, estreando como autora com o romance O Olho Mais Azul (1970). Sua carreira mudou com Song of Solomon, obra elogiada pelo crítico John Leonard, do New York Times, que a chamou de obra-prima. O nome dela alcançou alturas ainda maiores. Amada ganhou o Pulitzer em 1988. O Nobel veio cinco anos mais tarde.

Em seu próximo romance, planeja falar sobre um intelectual negro, afastando-se dos personagens de baixa escolaridade que costumam aparecer na sua obra.

"Quando não estou pensando num romance, ou o escrevendo, sinto-me mal. Preciso (da escrita) para me manter firme, do ponto de vista emocional", diz. "Quando terminei O Olho Mais Azul, não fiquei satisfeita. Minha vontade era escrever sobre a amizade entre mulheres. (A inspiração de 'Sula', seu segundo romance.) E subitamente, o mundo parecia um lugar muito interessante. Tudo o que havia nele era algo que eu podia usar ou descartar. A questão é - é assim que vivo aqui. Creio que este é o meu lar." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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