UM PADRE LUTA POR UMA IGREJA ABERTA

O livro Fé Além do Ressentimento, do padre inglês James Alison, começa com uma história bíblica, a de José e seus irmãos. É, portanto, a história de um homem socialmente morto para a família, mas renascido em outro lugar, onde foi mais feliz e próspero. No entanto, para que seus irmãos não persistam no caminho fratricida que haviam escolhido, imagina uma estratégia para atrair aqueles que o traíram e compartilhar com os inimigos a abundância que lhe foi concedida. Alison não crê que José estivesse livre do ressentimento quando foi vendido como escravo pelos irmãos, mas acredita que ele teve tempo de meditar no Egito que o pior caminho para quem conheceu o deserto da intolerância seja justamente o do ódio.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

"Essa história é uma das maravilhas do Velho Testamento", diz Alison, que com ela pretende contar a própria trajetória de gay criado num ambiente de classe média conservadora inglesa - ele era evangélico anglicano. Alison descobriu que a fé católica não é inconciliável com a condição homossexual. Formado em Teologia na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte, Alison vive sem restrições a sua homossexualidade e está adotando um filho brasileiro, Luiz Felipe, após ter perdido, em 1994, seu parceiro Laércio, vítima da aids.

Foi lendo o filósofo René Girard, teórico francês que estuda questões como o desejo e a violência, que Alison encontrou seu canal de expressão. Seu projeto de vida é criar uma pastoral para formar jovens gays rejeitados por suas famílias e que acabam, muitas vezes, se entregando à prostituição para sobreviver. Seu livro não trata exatamente de sua experiência pessoal com os segregados mas mostra, por meio do estudo bíblico e dos textos de Girard, que a paranoia alheia está sempre à espreita para virar a nossa.

No lugar de condenar a inflexibilidade do Vaticano sobre o reconhecimento das relações homoafetivas, Alison diz que se empenhou para provar que é possível viver uma vida amorosa de natureza homossexual e seguir, ao mesmo tempo, o sacerdócio, como o religioso do filme O Padre, da inglesa Antonia Bird. Assumido, garante que não foi condenado por desafiar a atual posição eclesiástica sobre os gays. "No meio eclesiástico existem muitos homossexuais", diz, garantindo que a Igreja tem sido mais tolerante hoje do que foi no passado recente. "Na época de João Paulo II ela era mais hostil." Isso não quer dizer que a Cúria Romana tenha a intenção de rever sua posição sobre a cultura gay. Ela pode reconhecê-la, mas ainda parece distante de aceitá-la.

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