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Um padre de Nossa Senhora

Na quinta-feira passada, faleceu. aos 97 anos, o reverendo Theodor M. Hesburgh, presidente emérito da Universidade de Notre Dame, em South Bend, Indiana, nos Estados Unidos.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h06

Recebi a triste notícia no dia seguinte, quando entrei no site do The New York Times e vi a notícia estampada na primeira página. Até mesmo os amadores sabem como a primeira página é importante na hierarquia do jornalismo. A manchete ou a "chamada" na primeira página de um jornal diário equivale a uma capa de livro, porque o jornal não tem capa fixa: tem páginas soltas e flexíveis, tal como compete e quem fala do presente. A verdadeira notícia (grande ou pequena), reveladora das perdas e ganhos deste mundo, tomam corpo na primeira página e ganham crédito nos jornais mais reputados. O NYT é um desses jornais e ser noticiado nele sinaliza a importância de fatos e pessoas. Se você morrer e sair uma nota em qualquer página do New York Times, é porque você foi uma pessoa cuja vida teve algum impacto.

Quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, em 1963, ouvi de um amigo que o pai de um dos nossos professores era um homem muito, muito importante, porque o NYT havia feito o seu obituário.

Mas o relevo dado à morte do sacerdote Theodor Hesburgh - padre "Ted" - como era chamado e assinava o seu nome, não me surpreendeu. Devedor da Universidade de Notre Dame, onde fui professor, senti o peso dessa morte no meu coração.

De fato, cheguei a Notre Dame no final da presidência do padre Hesburgh e logo percebi o desafio ao seu substituto, o reverendo Edward Malloy, porque como me disse um padre meio-colega, meio-anfitrião e meio-confessor: "Tudo o que você vê aqui tem a mão de Ted Hesburgh". E o padre Malloy, diga-se logo, honrou e incrementou o legado recebido.

E foi assim que eu testemunhei a sobrevivência da chamada "era Hesburgh" (que durou 35 anos) na do seu sucessor, o reverendo Malloy, que veio a ser de 18 anos, um ano a mais do que o tempo em que ali ensinei. Impressionou-me essa passagem reveladora da interdependência entre pessoas e instituições a qual, no caso de Notre Dame, fez com que o carisma fosse implementado na vida burocrática e patrimonial da universidade e vice-versa, pela devoção integral à missão que Notre Dame descobriu e tem realizado nos Estados Unidos dos calvinistas, graças à presença do reverendo Theodor Hesburgh.

Missão relacionada ao estabelecimento de uma educação universitária católica romana num meio que sempre duvidou da possibilidade de conciliar fé com a ciência; e religião ligada ao Vaticano com o forte patriotismo (e etnocentrismo) americano.

Não foi, pois, por acaso que no país dos calvinistas, um padre católico praticante de "magias" e consciente do poder das mulheres - como a Virgem Maria, a Nossa Senhora do Lago, nome completo da universidade - tenha chamado tanta atenção pelo seu sempre excepcional e amplo protagonismo público e político. De fato, impressiona descobrir que o padre Ted tenha atuado em tantas áreas da vida americana - do movimento dos Direitos Civis à oposição à proliferação das armas nucleares sem, entretanto, deixar de ser um padre de Notre Dame.

Aos que imaginam que a devoção a um só papel social aprisiona, eis uma vida a revelar como servir a uma só causa é sinônimo de liberdade criativa.

Hesburgh tornou-se presidente de um pequeno e humilde colégio católico de rapazes, famoso pela excelência e criatividade do seu time de futebol e o transformou na maior e mais prospera universidade católica do mundo. Uma instituição na qual a pesquisa e o ensino jamais sofreram interferência religiosa. Durante sua administração, o orçamento de Notre Dame passou de US$ 9.7 milhões para US$ 176.6 milhões e o seu fundo de pesquisa subiu de US$ 735 mil para US$ 15 milhões! A lista de seus feitos e conquistas seria, por si só, uma enorme crônica.

Estive com o padre Ted algumas vezes. Ele pertencia àquele precioso grupo de pessoas bem resolvidas, que transmitem confiança, calor humano e amor pelo que fazem.

Durante um de nosso breves encontros, dois casais pediram sua bênção, no que foram atendidos de imediato. Tomei uma vez uma bebida com ele no Morris Inn, a famosa hospedagem da universidade. Contou-me como conseguiu fundos para a construção do prédio onde tive um escritório. Perguntou-me sobre o Brasil e seu retorno à vida democrática e repetiu uma de suas frases mais sábias: "O voto é um sacramento cívico".

Ao me despedir, pedi-lhe a bênção. O padre Ted despertava essa vontade. Era um sacerdote com um imenso e raríssimo dom de empatia - a capacidade de ver os outros identificando-se com ele, tal como um poderoso xamã. Jamais será esquecido por quem é parte da comunidade de Notre Dame.

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