Um ousado retrato do gênio Machado de Assis

O lançamento da biografia Machadode Assis, Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial, 416 págs. R$ 60) na quarta, às 19h, na Casa das Rosas, deve provocardiscussões apaixonadas no meio acadêmico sobre esse novo eousado retrato do bruxo de Cosme Velho. Escrita por Daniel Piza,colunista e editor-executivo do jornal Estado de S. Paulo, a biografia, respeitosa, não deixa de apontar as contradiçõesdaquele que é considerado pelos críticos como o maior escritorbrasileiro. Trata-se de um retrato original do autor de MemóriasPóstumas de Brás Cubas, que testemunhou a derrocada daMonarquia e o nascimento da República. Vinculando textosmachadianos a episódios de sua infância e juventude, Piza mostracomo o maduro Machado conservou os traços do jovem de espíritocrítico que não se deixou contaminar pelo ambiente, trabalhandoincansavelmente para entender o país em que viveu. Pizafala sobre o escritor, cuja última biografia (de RaimundoMagalhães Jr.) foi publicada há 25 anos. A média anual de estudos sobre Machado saltou de 18, em1950, para 70 há dois anos, o que coloca o leitor diante de umadúvida: ou muito ainda há para falar do escritor ou o que existeé pouco revelador. Você, que pesquisou sua obra durante todosestes anos, foi, de alguma forma, auxiliado por esses estudos? Há muito ainda para falar, porque a obra de Machado écomplexa, sutil, e diz muito a respeito da mentalidadebrasileira. Em qualquer outro país ele seria tema de 700 estudospor ano, não de 70. Também faltam informações confiáveis sobresua infância e adolescência. Ao mesmo tempo, sim, luzes foramlançadas nestes 25 anos que se passaram desde a biografiaanterior, escrita por Raimundo Magalhães Jr. Sabemos um tantomais sobre o Brasil da passagem da Monarquia para a Repúblicagraças a historiadores como José Murilo de Carvalho. Gledson eChalhoub, em especial, ajudam a mostrar como Machado teve umolhar crítico sobre esse tempo e lugar. A crítica, porém,continua a se dividir entre a abordagem sociológica e apsicológica. Por sua grandeza, Machado não se reduz a essapolarização. A última biografia machadiana saiu em 1981. O que sedescobriu, desde então, que foi incorporado a "Machado de Assis,Um Gênio Brasileiro"? O que você acha das biografias de RaimundoMagalhães, Lúcia Miguel Pereira e Luís Viana Filho? Acredito que meu livro revele um Machado muito maisligado à vida do 2.º Reinado do que se costuma pensar. Comoexplicar, por exemplo, a transformação de sua literatura depoisda doença que o obrigou a passar uma temporada de recuperação emNova Friburgo? Não pode ser apenas pela experiência pessoal.Todo o mundo em que ele havia se formado estava em crise. Osanos 1870 foram de intenso debate político e estético no Brasil.Além disso, há conceitos de época que busquei para entendermelhor suas reações. A melancolia, por exemplo, era vista comoincapacidade de se elevar a Deus; a epilepsia, confundida com ainsanidade. E como entender Quincas Borba se não se analisa amaneira peculiar - contemporizadora - como o positivismo foiadotado no Brasil? Todos esses temas, que no fundo abordam avelha questão filosófica corpo x alma, estão em sua obra. Asoutras biografias, importantes por sua pesquisa, põem maquiagemem Machado. Tratam, por exemplo, o fato de que ele recusou aextrema-unção como se fosse corriqueiro... Há uma controvérsia quanto ao fato de Machado seconsiderar ou não mulato. O crítico José Veríssimo o define comoum mulato "grego" pelo seu "profundo senso se beleza eharmonia". Já Joaquim Nabuco diz que ele odiaria a palavra, pornão ser literária, mas pejorativa, e que Machado se consideravabranco. Quem, afinal, está certo nessa discussão, uma vez que oescritor era neto de escravos e seu pai, negro? Não há documento que mostre Machado se referindo a essetermo. É provável que o achasse pejorativo, sim. Mas isso nãosignifica que não tenha escrito páginas contundentes sobre amentalidade escravocrata, sobre o racismo nem sempre velado dosbrasileiros. Ele escreveu, e com uma profundidade única - videos contos O Caso da Vara e Pai contra Mãe. Também participou da campanha abolicionista, conduzida entre outros por seu amigo Joaquim Nabuco. Só não era um tribuno, um homem de subir ao púlpito e discursar. Mas era um humanista, um iluminista. Em seu atestado de óbito, por exemplo, consta "raça branca"; elecertamente teria preenchido como Einstein: "raça humana". As contradições de Machado, como você mesmo observa nolivro, são grandes. Monarquista, posou de liberal eabolicionista. Moralista, foi censor de peças teatrais, mascriticou o conservadorismo da sociedade de sua época em obrascomo "Dom Casmurro", apoiando mesmo a eleição das mulheres. Comovocê fez para chegar a um ponto de equilíbrio que evitasse umjulgamento moral do biografado? Primeiro, não escondi nem desculpei nada. Minhaadmiração por ele não me impede de ver seus defeitos econtradições, o que me parece que nem sempre se entende noBrasil. Segundo, desenhei as mudanças de seu pensamento, sematribuir a ele nada que não tenha sido comprovado. Uma obra dearte não repete mecanicamente as virtudes do autor. Às vezes, aprópria virtude dela nasce de um "defeito" dele. O apego deMachado a certo romantismo e moralismo, por exemplo, o impediude aderir ao naturalismo de Zola e do primeiro Eça. E o levou atomar um caminho independente de qualquer escola. Você afirma que Machado tinha uma capacidade singular para gozar a si mesmo por meio de seus personagens, citando particularmente o caso de "Brás Cubas", que, aliás, assume como alter ego, uma vez que o escritor se coloca, em "MemóriasPóstumas de Brás Cubas" como o narrador da história. Quaissão os traços que mais aproximam autor e personagem? Não há um paralelo biográfico. Ele ironiza as ilusõeshumanas e, assim, a si mesmo. Brás Cubas é um adeus ao romance tradicional, descritivo, centrado nos costumes. O narrador faz sua autópsia. Machado, de certo modo, também se despede daspretensões de explicar a natureza humana com um sistema moralperfeito, fechado, em que os contrários se conciliassem numaharmonia plena. Busca o meio-termo entre romantismo e realismo,mas sabe que a verdade é sempre esquiva. Machado de Assis foi, segundo seu livro, um grande autortambém por retratar o teatro social de sua época. Algunscríticos defendem que o Machado da primeira fase é muitodiferente do Machado maduro porque, então, contava histórias deuma maneira "respeitosa", comportando-se como um subalternodiante da elite, mudando esse comportamento na última fase. Vocêconcorda com essa visão ou essa foi apenas uma "mudançaexistencial"? Mais uma vez, os dois fatores pesaram. O Machado jovem,como ele mesmo apontou, já tem traços do Machado maduro. E estenão pode ser catalogado como um "crítico da elite brasileira".Na verdade, ele não perdoa ninguém. Tanto os ricos, os herdeirosmimados, como seus dependentes e os "emergentes" em geral, comodizemos hoje, se deixam guiar por interesses e aparências. Oalvo de Machado, como o dos satiristas que admirava - Luciano,Swift, Voltaire, Diderot -, é toda a humanidade. Ele ri e choracom ela o tempo todo. Na vida pessoal, foi crescentementeassimilado e exaltado por boa parte das tais "elites". Como um homem inteligente que era, Machado sabia serimpossível barrar o futuro, ou seja, o ideal republicano e oavanço da ciência. Você diz que, por não aderir à ondarepublicanista, ele "passou a dedicar sua obra a entender aqueleperíodo de ilusões românticas". Esse autodistanciamento doescritor não seria uma forma de ficar em cima do muro e aindaassim usufruir o que as duas correntes do poder tinham aoferecer? Ele não ficava em cima do muro. Sua posição é clara:defendia uma monarquia constitucional, não o arremedoabsolutista que havia no Brasil; queria a abolição, mas não aRepública, porque julgava nossas oligarquias corruptas eincultas. Não soa atual? Como ele dizia, catava "o mínimo e oescondido" porque é aí que ninguém mete o nariz. Acho que ele sededicou a entender o que tinha ocorrido nos anos 1860 e 70porque foi o período que testemunhou com mais intensidade. Édisso que se fazem as grandes obras. Araripe Júnior foi um dos primeiros críticos a apontar aproximidade de Machado com a literatura de Laurence Sterne. Suabiografia menciona a crítica, mas como você, pessoalmente,analisa esse diálogo do escritor brasileiro com Sterne eFeuillet? Machado já se aproxima de Sterne no prefácio a BrásCubas. Ele retirou de Tristam Shandy alguns recursos, como a metalinguagem, a auto-ironia, as lacunas narrativas. E osaplicou a histórias como as que lia, traduzia e adaptava parateatro quando jovem, como os folhetins românticos. Isso deu umaleveza, uma galhofa, que não existe da mesma forma em Sterne.Mas há muitas outras influências sobre Machado, como as quecitei antes, além de Edgar Allan Poe, Xavier de Maistre e, claro Shakespeare. Pelos olhos de hoje, pode-se dizer que em sua obrahá ainda um parentesco - só que misturado à sátira iluminista -com o realismo impressionista de Henry James ou Chekhov, que elenão leu. Uma crítica comum que se faz a Machado é a de ser umescritor colonizado, não só por suas leituras de autoreseuropeus como pela preferência em escrever sobre temas políticosinternacionais como a unificação italiana, quando poderiacomentar o que se passava aqui ao lado, mais especificamente, emCanudos. Como explicar esse distanciamento? Ele fala sobre Canudos numa crônica, mas en passant,primeiro deplorando o primitivismo do movimento, depoismostrando respeito pela dimensão da figura de AntônioConselheiro. Mas ele escreveu sobre o Brasil em quase todos osparágrafos! Criticava muito a credulidade de seuscontemporâneos. Dizia que o brasileiro tem "a bossa dailegalidade" e se queixava de seus exageros verbais e de suaexcessiva informalidade; simultaneamente, ria do seu gosto portítulos e brasões, da gravidade fatalista com que reage às másnotícias, etc. Machado foi o menos colonizado dos nossosescritores. Por aí você vê como ainda falta coisa para dizersobre ele. A criação da Academia Brasileira de Letras por Machadoteria mesmo o objetivo de ser uma "república federativa dasartes, livre de ideologias" ou foi uma prova de que Machadotinha não só nostalgia das agremiações literárias que existiamdurante o Império, mas de uma hierarquia capaz de garantir aoescritor um status superior ao dos republicanos? Ele tinha nostalgia pelas agremiações literárias do 2ºReinado, sim, e também gostava de ser respeitado, de ser tratadocomo mestre pelas novas gerações. Era muito cioso de sua obra,como se soubesse que a posteridade o veria melhor. Mas não fez aAcademia para dar chancela a esse status. Ele realmenteacreditava em unir os escritores numa instituição protetora,tanto que ela era composta não só por membros de diversasgerações, como de diversas ideologias. Até Sílvio Romero, que oatacou ferozmente em livro, entrou lá. Machado não gostava depolitizar a literatura e não podia saber que a Academiacometeria tantas vezes esse erro no futuro. Como homem, tinha osdefeitos do seu tempo. Como autor, tinha as virtudesextemporâneas.Machado de Assis - Um gênio brasileiro, de Daniel Piza. Lançamento na Casa das Rosas. Av. Paulista, 37, tel. 3289-1791. Quarta, às 19h

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