Um Otello já histórico

Sai em DVD versão filmada por Zeffirelli da ópera de Verdi

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2011 | 00h00

Depois de fracassos recentes como o filme Callas Forever ou a repetição incessante de modelos antigos em novas montagens, fica difícil imaginar que houve um dia no qual o diretor Franco Zeffirelli tinha algo a dizer sobre a ópera. Mas ele existiu. No cinema ou no palco, o diretor italiano fez registros importantes das grandes óperas do repertório - e um bom exemplo é o Otello, de Verdi, filmado nos anos 80 para a MGM e agora lançado no Brasil pela Versátil.

O que a versão de Zeffirelli tem de mais interessante é também seu principal defeito. O diretor filma a história de Shakespeare, adaptada por Verdi e o libretista Arrigo Boito, em locações em Creta e no sul da Itália. O efeito visual, desde a primeira cena, quando o navio do mouro de Veneza chega em meio a uma tempestade a Chipre, é impressionante. Mas, lá pelas tantas, Zeffirelli se perde em paisagens e cenários deslumbrantes, entrecortando a cena e tirando dos cantores - e da música - o foco principal.

E isso, no caso do Otello, é mortal. A ópera é um dos grandes pilares da união dramática de música e texto. Poucas vezes em toda a história do gênero todos os muitos elementos que fazem da ópera um espetáculo único dialogam de maneira tão eficaz. Não há nada que música e texto não digam e, assim, quebrar cenas habilmente construídas, como o dueto entre Otello e Desdêmona, no fim do primeiro ato, com paisagens evocativas da infância dos personagens é no mínimo despropositado.

Otello marca a maturidade de Verdi e exige grandes intérpretes, construídos repletos de matizes, de contrastes. Se a versão de Zeffirelli permanece como referência é, em parte, porque no papel principal está o tenor Plácido Domingo, principal intérprete do papel na segunda metade do século 20. Ao seu lado, o Iago perfeito cênica e vocalmente do barítono Justino Diaz; e a Desdêmona delicada de Katia Ricciarelli.

Como extras, o DVD traz informações sobre vida e obra do compositor e do diretor, nada, porém, de muito interessante. Com relação à versão pirata vendida há alguns anos no Brasil, a nova edição tem, porém, sons e imagens mais bem cuidadas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.