Divulgação
Divulgação

Um olhar sobre a obra de Donizete Galvão

Morto aos 58 anos, poeta e jornalista mineiro deixou sete livros publicados

Mariana Ianelli, Especial para o Estado

31 Janeiro 2014 | 21h09

Donizete Galvão estava em seu quinto livro quando o conheci em dezembro de 1999. Participávamos do ciclo de debates A Poética dos anos 70, 80 e o Final do Século no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista. Três noites, uma por semana, com poetas de diferentes gerações reunidos. Foi nessa ocasião que recebi seu então recém-lançado Ruminações, livrinho do tamanho da palma da mão, no qual descobri a densidade de uma poesia entre o carnal e o indefinível, com raízes agarradas à terra da roceira Minas Gerais, de Borda da Mata, onde a exuberância da natureza fez o espanto do poeta ainda menino. Em Ruminações descobri o gosto de Donizete pelos arcaísmos, todos com frescor e força de palavras corpóreas, tirando música de um carrear de bois na estrada como um Villa-Lobos da poesia. Além do curral da criação, onde o poeta rumina o sentimento do tempo, o curral das cidades com suas muralhas, seus homens carapaças e seus anônimos exilados ou excluídos. 

Entre as fontes dessa poesia de paisagens cantadas, estão outras artes e paisagens, aquelas que transcendem a palavra ou o que nela é apenas ruído. Se há gritos nos poemas, e os há, são os debulhados em sangue, como o do porco no chouriço. Mas há, sobretudo, silêncio, esse silêncio de onde o poeta foi colhendo suas palavras antes mesmo de Ruminações. Aí repousa o que é secreto, o que deve vir à tona numa voz contida, a exemplo dos versos de Orides Fontela que Donizete homenageou em sua poesia. O coração das coisas, o miolo, a polpa, a pérola, a gema escondida, isso Donizete buscava em retalhos, dejetos, escombros, rompendo a couraça anti-humana dos estetas. E o buscava, a esse coração, em restos de homens e de afetos, em rochas, em ruínas de cidades, no mundo mudo dos enjeitados, de onde fazia aflorar “um grão / um broto / um grito”.

Assim sua poesia encarnou uma “paisagem semeada de frutos, gentes e bichos”, permeável a todos os sentidos, nunca negando a realidade bruta, tampouco se bastando nela. Donizete sabia, sempre soube, que “não bastam as sementes, / a terra, a chuva, o suor do homem. / Para que seja farta a colheita, / é preciso haver um sopro sagrado”. É preciso penetrar as coisas, habitá-las, deixar que o estrume de vaca para o adubo se entranhe nas unhas, assim as rosas têm mais perfume. É preciso habitar com olhos atentos a vida minúscula da putinha de São João del Rey, do mendigo Ulisses, dos homens transparentes, dos que vivem à margem em seu anonimato, e soprar neles espírito, até que revivam, agora no cerne do poema, em seus ossos, carne e sonhos. Vêm da “primazia do olho” a transfiguração dos mitos na poesia de Donizete, seus maravilhosos elogios a artistas plásticos, o aflorar da palavra necessária numa atenção enraizada em sentimento. Em pleno ato de uma dessas alquimias, vi o poeta, pela última vez, lendo Para Evgen Bavcar na cerimônia do Prêmio Portugal Telecom 2011, do qual O Homem Inacabado, seu décimo e derradeiro livro, foi finalista. Foi rogando ao anjo com estes versos que Donizete se despediu de nós: “Que o anjo distraído de Klee / guarde aqueles colhidos na engrenagem / produtora de ruínas”.

MARIANA IANELLI É POETA, AUTORA DE O AMOR E DEPOIS (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS

Notícias relacionadas
Mais conteúdo sobre:
poesia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.