Um olhar sobre a intimidade

Especialistas comentam a longevidade de Shakespeare

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h10

A americana Rebbeca Lemon, da University of Southern California, é uma das maiores especialistas em Shakespeare na atualidade. Na semana passada, ela fez uma palestra na Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas sobre a relação entre Shakespeare, Direito e Teoria Política. O evento contou também com a participação de Arthur Marotti, da Wayne State University, outro especialista na obra do bardo. Juntos, eles responderam às perguntas formuladas pelo Estado.

Por que a obra de Shakespeare sobrevive tão gloriosamente? Rebbeca Lemon: Uma razão para Shakespeare interessar tantas pessoas é que ele herda e inventa histórias que são arquetípicas: histórias de amor, mortalidade, ciúme e vingança. Essas histórias encontram interessados em várias línguas e culturas. Penso que vemos isso no projeto Global Shakespeare, que compila encenações de Shakespeare por todo o globo, em muitas línguas - algumas dessas encenações traduzem o inglês original, enquanto outras se livram do texto de Shakespeare, mas conservam a história central. E a gama dessas encenações revela a longevidade de suas histórias, que tocam em questões-chave da vida. Tais histórias também apresentam um amplo leque de pessoas. Shakespeare nos mostra (ou nos dá a ilusão de mostrar) as vidas interiores de homens e mulheres, de pessoas de várias raças; de pessoas aristocráticas e da classe trabalhadora. E, em sua forma dramática, as peças de Shakespeare investigam problemas da vida como o amor, o ciúme e a tirania, mas ele nunca nos dá uma resposta direta.

Arthur Marotti: Há muitas razões para a durabilidade de Shakespeare: sua linguagem maravilhosa, seu senso agudo de psicologia humana e as nuances de comportamento, sua capacidade de engajar os públicos em seu o próprio tempo e depois - pessoas de diferentes níveis sociais, diferentes competências intelectuais, diferentes pressupostos culturais. Muito de sua durabilidade advém de sua capacidade de escrever textos "abertos" que permitem que públicos de seu próprio tempo e futuros ajudem a criar uma experiência imaginativa em cada peça. Essa abertura permite uma adaptação flexível de seus textos em diferentes tempos e diferentes países para tratar de novas circunstâncias históricas e preocupações culturais. O subtítulo de sua peça Noite de Reis é Como Queiram Chamar. Ele escreve uma comédia chamada Assim É se lhe Parece; o título alternativo de Henrique VIII é Tudo é Verdade. Todos esses exemplos indicam a maneira como ele convida seu público a colaborar com ele e a fazer de seus dramas uma experiência que sirva às suas próprias necessidades e interesses.

Críticos tentaram abstrair o teatro da obra de Shakespeare e apresentá-la como poesia pura.

Lemon: Shakespeare escreveu poemas comoventes e maravilhosos: sonetos e poemas longos. Ele é inquestionavelmente um poeta de primeira grandeza. E seu talento poético se faz presente em muitas de suas peças, em especial nas canções e solilóquios. Eu sugiro, portanto, com toda confiança, que podemos ler as peças de Shakespeare como poesia pura e tirar muito delas.

Marotti: As peças de Shakespeare não se mostram "efêmeras", mas certamente estavam afinadas com o momento de sua composição e produção. Elas contêm poesia agradável que prende nossa atenção, mas também têm uma progressão narrativa que engaja nosso interesse no desfecho.

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