Um olhar preciso sobre o essencial

Mostras, livros e viagens são assuntos de Coleção de Areia, que reúne textos breves de Italo Calvino

Aurora Fornoni Bernardini, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2010 | 00h00

Antes de adquirir fama internacional como um dos maiores escritores do século 20, Italo Calvino (1923-1985) já havia sido, durante muitos anos, leitor da editora Einaudi e colaborador assíduo dos principais jornais italianos, atingindo assim - tanto nos seus artigos como na sua prática de descobridor de talentos - uma precisão surpreendente para detectar as essencialidades das obras, que seu faro o levava a escolher, muitas vezes escondidas em pequenos detalhes de conteúdo ou de estilo. É isso o que ele faz neste livro, saído, na Itália, um ano antes de sua morte e que - juntamente com Assunto Encerrado (Una Pietra Sopra, 1980), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras - ele considerava a parte de crítica "de literatura e sociedade" mais representativa de seu percurso intelectual. Os dez primeiros escritos de Coleção de Areia, dividido em quatro partes, são, na verdade, crônicas de visitas a curiosas exposições nos museus ou galerias parisienses que, de alguma forma, o impressionaram. Bastam alguns temas - "A América vista pela Europa"; "Cartas e figuras da terra"; "O nascimento da escrita"; "A imprensa marrom"; "Nós e amarrações"; " Escritores que desenham" -, bem como os títulos da segunda e terceira partes, "O raio do olhar" e "Relatos do fantástico", agora sobre livros escolhidos por Calvino, para darem uma idéia da "necessidade de transformar o escorrer da própria existência numa série de objetos salvos da dispersão". E, ainda, para que "talvez fixando a areia como areia, as palavras como palavras, possamos chegar perto de entender como e em que medida o mundo triturado e erodido ainda possa encontrar nelas fundamento e modelo".

A quarta e última parte do livro, chamada "A forma do tempo", que é também sua culminação, consiste em impressões das viagens que Calvino empreendeu no Japão, México e Irã entre 1975 e 1976. Obviamente, não se trata de impressões quaisquer. É uma verdadeira descoberta dos traços que constituem, para ele, a essência de cada país, tais como se configuraram durante os séculos/milênios de seu passado e tais como se veem ameaçados pelo futuro próximo. Um escritor consumado como Calvino sabe se deixar envolver pela ambiência dos lugares que visita, estabelecendo relações com as coisas que ocorrem sob seus olhos. Em Tóquio, é uma velha senhora de quimono violeta, tratada com devoção por uma jovem cheia de graça e civilidade no mesmo trem em que homens de negócios folheiam sofregamente sobre os joelhos dossiês de balanços financeiros. Já em Kyoto, as velhas nodosas se assemelham às árvores anãs, segundo a tradição do bonsai, num jardim que permanece sempre o mesmo onde, secundando a paixão japonesa pelo pequeno que dá a ilusão do grande, nenhum elemento jamais prepondera sobre o outro e o templo de madeira nos pode ensinar que "para entrar na dimensão do tempo contínuo, único e infinito, o único caminho é passar pelo seu contrário, a perpetuidade do vegetal, o tempo fragmentado e múltiplo do que se alterna, se dissemina, brota, resseca ou apodrece".

No México é uma árvore (uma superárvore) que, por meio de um caótico desperdício de forma e matéria, o leva a duvidar - a ele que sempre visou a concentração para um fim - se a transmissão do sentido não se asseguraria, ao contrário, na redundância, na imoderação do manifestar-se. Mas aquilo que parece se aproximar é o corte de todos os ramos, um a um ou todos juntos, a iminência de catástrofes nas quais já não há mais destruição e renascimento num ciclo sem fim, onde hoje "outros Deuses falam por meio de nós, conscientes de que tudo o que termina não regressa".

Da mesma forma, no Irã, o que ilumina sua visitação é uma moldura em relevo, arrematada por uma arquitrave com um friso perfurado como uma renda, com inúmeros efeitos de emaranhamento e saturação (competentemente rendidos em português pela tradução atenta), sobre um fundo em arco encavado e minuciosamente esculpido: o mihrab, o nicho que, nas mesquitas, indica a direção da Meca. E o que se vê dentro desse arco no interior de todos os arcos? Nada: a parede nua. Pois bem, aquele algo que se revela inexistente no fundo do mihrab leva o autor a compreender a importância dos espaços vazios. E mais: que "a ideia de perfeição que a arte persegue, a sabedoria acumulada na escritura, o sonho de contentamento de todo desejo que se exprime no esplendor dos ornatos, tudo remete a um só significado, celebra um só princípio e fundamento, implica um objeto único e último. Um objeto que não existe". Donde a verdadeira substância do mundo ser dada pela forma cava. Mas, o que chega hoje do Irã são imagens bem diferentes, imagens "sem espaços vazios, apinhadas de multidões, de gritos, de gestos ritmados, escurecidas pelo preto dos mantos que se estendem em cada canto, carregadas de uma tensão fanática sem trégua nem respiro". Nada disso havia visto Calvino, ao perscrutar o mihrab.

AURORA FORNONI BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA DA USP

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