Um olhar mais fresco sobre o desatino do mundo

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2013 | 02h08

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Ver o mundo pelos olhos infantis - quantas vezes esse recurso não foi usado, com bons e maus resultados? De ditaduras militares (Infância Clandestina ou O Ano em Que Nossos Pais Saíram de Férias), a perdas e processo de amadurecimento (Nossa Vida de Cachorro), intolerâncias da vida adulta (o clássico de Bergman Fanny & Alexander), este foi historicamente um meio para colocar a nu convenções absurdas do mundo adulto, seus desatinos e hipocrisias.

Serve também para uma tarefa adicional, a de repor a magia num mundo desencantado pela racionalidade excessiva. Enfim, existe, na consciência moderna, algo de sublime no imaginário da infância e o cinema faz bem em recorrer a ele.

No caso de Adorável Sonhadora, do diretor Benh Zeitlin, esse olhar é o da garota Hushpuppy (a estupenda Quvenzhané Wallis) que, do caos criado pelas enchentes no Sul dos Estados Unidos, nos devolve um mundo maravilhoso, e muitas vezes assustador, tão ou mais amedrontador do que a terrível realidade que a cerca. De qualquer forma, esse olhar nunca é banal.

É um mundo em que seres pré-históricos podem surgir de uma hora para outra, ou que animaizinhos domésticos podem significar um relacionamento mais intenso do que com os adultos esquisitos que rodeiam a menina.

Entre esses adultos, uma única figura protetora, o pai, Dwight Henry, que, no entanto, está doente e progressivamente incapacitado para desempenhar seu papel. O destino de Hushpuppy é a solidão, e o relacionamento com outros adultos dos quais desconfia.

Por fim, não é apenas o mundo infantil em sua relação com a catástrofe que Indomável Sonhadora descreve. Todo o entorno expressa um modo de vida engolfado pelas águas e cercado por outro tipo de sociedade, que aparece como salvadora e, ao mesmo tempo, invasiva e pouco amigável.

Esse mundo aquático, que os habitantes chamam jocosamente de "a banheira", naquela costumeira autoironia dos muito pobres, está destinado ao desaparecimento. Quando chega a catástrofe, alguns dos moradores locais fogem, mas a maioria fica à deriva, por assim dizer, tentando sobreviver de alguma forma e construindo um modo de vida segundo suas regras e valores. Precário, com certeza, mas que faz sentido para eles.

Nesse sentido, Indomável Sonhadora não é apenas a catástrofe sob o olhar infantil, mas também registro desse mundo em decomposição, representado pelo ponto de vista dos mais frágeis.

Uma visão autoritária e normalizadora, vinda de cima para baixo, tende a ver esse mundo como abominação a ser abolida. Pelo ponto de vista de quem domina a sociedade, não basta resgatar os mais fracos da miséria e livrá-los do perigo imediato - é preciso catequizá-los e conquistá-los para os valores dominantes. Essa normatização de valores é a que se pratica no país em sua política interna. E em sua política externa também.

Indomável Sonhadora propõe que podem existir outros valores e modelos de vida, mesmo que muito desfavorecidos e estranhos aos nossos olhos de classe média. Mais uma vez, o olhar infantil revela-se o mais crítico possível acerca dos desacertos do mundo.

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