Um olhar de franqueza

Lançado nos EUA, livro das memórias do músico entre 1903 e 1923 chamou a atenção e foi resenhado no caderno por Augusto Boal

Augusto Boal, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

AUTOBIOGRAFIA

Louis Armstrorg, THE RIOTOUS STORY OF THE ONE AND ONLY SATCKMO, MY LIFE IN NEW ORLEANS, A Signet Book, Complete and Unabriged, 20 ilustrações fora do texto, The New American Library, New York, 1955, 190 pags.

A cidade de New Orleans divide-se em quatro partes: Up e Downtown. Front o"Town e Back o" Town. Nesta ultima, numa ruela chamada James Allein, perto de Liberty e Perdido Streets, existe um lugar chamado The Battlefield. Foi ali que nasceu Satchmo, o genio do jaz z. Louis Armstrong. O nome "Campo de Batalha" justifica-se logo nas primeiras narrativas de lutas entre os moradores do bairro, na maior parte ladrões, jogadores, desocupados, prostitutas e muitas crianças. Louis nasceu no dia da Independencia que foi, nesse ano como nos demais, celebrado com tiros de pistola e combates a faca.

A sinceridade, a quase candura e franqueza com que Armstrong comenta a sua vida, são deliciosas. Não poupa sequer os parentes mais proximos. "Quando meus pais se separaram, minha mãe foi morar numa rua onde só viviam prostitutas. Se se tornou uma delas não sei, porque nunca vi". Louis viveu, durante a infancia e a juventude, com sua avó, depois com seu pai e a madrasta, e também com sua mãe e seus sete ou oito padrastos.

(...).. .

O livro refere-se apenas ao período que vai de 1903 (data do seu nascimento) até 1923 quando deixou New Orleans para integrar a Creole Jazz Band de "King" Oliver, em Chicago. As cenas de violencia em "Uma Rua Chamada Pecado", de Tennessee Williams, não dão ao menos uma vaga idéia das recordações de infancia de Louis Armstrong. Todo mundo vivia brigando por dinheiro, bebida ou mulher. Louis lembra-se da luta de duas mulheres pelo mesmo homem, a timida Deborah e Mary Jack. Começaram num bar, insultando-se mutuamente, e terminaram na calçada cortando o rosto uma da outra, diante de uma multidão estarrecida e paralisada. Mary Jack morreu no Hospital: Deborah ainda vive, sozinha e desfigurada. Lembra cenas de amor: Black Benny e Nelly. Benny era um dos melhores bateristas de New Orleans. Todos gostavam dele. Até os policias que na cabeça dele batiam com menos força do que na de todo mundo. Suas entradas na cadeia tinham quase sempre o mesmo motivo: uma surra na mulher. As poucas vezes em que preferiu poupá-la, foi parar no Hospital. New Orleans até hoje não se esqueceu do dia em que lutaram a faca, em plena rua, até caírem exaustos e ensanguentados na calçada. Veio a ambulancia e dias depois ambos deram alta, voltando juntos e apaixonados como sempre para casa.

São esses os personagens típicos que figuram neste livro. São todos amigos de Satchmo. Alguns chamam-se pitorescamento Cocaine Buddy, Egg Head Papa, Dirty Dog, Checky Black, Sore Dick e Lulu White. Outros: "King" Joe Oliver, Jelly Roll Morton, Baby. Dodds, Sydney Bechet, Burk Johnson e Bix Beiderbecke. (...)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.