Um olhar brasileiro para Borges

Jorge Luis Borges passou por São Paulo, em 1970 e 1984. Entre debates e entrevistas, a presença do escritor provou que sua relação com o Brasil era estreita, e não se limitava à grande visibilidade que adquiriu a partir dos anos 70 - ao longo do século passado, a obra de Borges estimulou os mais diversos intelectuais brasileiros, que traçaram análises distintas. Esse material compõe o livro Borges no Brasil (604 páginas, R$ 40), que a Editora Unesp lança no próximo mês. O lançamento vai ser complementado por um debate promovido pela editora, no dia 25 de agosto, um dia depois daquele em que Borges completaria 102 anos. Organizada por Jorge Schwartz, professor de literatura hispano-americana e especialista no trabalho do escritor argentino, a obra divide-se em três partes. Na primeira, é feito um apanhado dos estudos sobre aspectos diversos no trabalho de Borges. Assim, em Clara Argentina: Mário de Andrade e a nova geração argentina, a pesquisadora Patricia Artundo revela detalhes de como o escritor modernista brasileiro foi um dos primeiros a dedicar atenção à escrita de Borges. Havia 65 livros de autores argentinos em sua biblioteca, correspondentes ao período de 1920-30. Mário de Andrade publicou cinco artigos no jornal Diário Nacional, entre 1926 e 1928. Em um deles, cita as duas primeiras coletâneas de poesia de Borges, "este poeta e ensaísta (que) me parece a personalidade mais saliente da geração moderna da Argentina". Das análises, percebe-se que Mário de Andrade já pressentia as qualidades, como ensaísta e contista, que consagrariam o argentino. O texto de Andrade é um dos detaques da segunda parte do livro, em que são registradas as primeiras vozes nacionais que se interessaram por Borges. Assim, Otto Maria Carpeaux observa que "o mundo fantástico de Jorge Luis Borges, mudando-se a hora e um ou dois nomes próprios, é o nosso mundo". Mais adiante, em outro texto, Clarice Lispector propõe a comparação de uma história coletada do livro História Universal da Infâmia com a narrativa de Wei Cheng-en, ministro de um imperador chinês. Como ambas tratam dos mistérios dos sonhos, Clarice arrisca-se a compará-las e a interpretá-las. Mestre do conto - Praticamente cego em seus últimos anos de vida, Borges não escrevia mais e ditava seus textos para a secretária particular, Maria Kodama, com quem se casaria dias antes de morrer. A cegueira aguçou sua atividade intelectual, promovendo a criação de uma invisível sintaxe mental. É o que observa Paulo Rónai, em artigo publicado em 1971, em que aponta Borges como mestre do conto: "Cultiva-lhe todas as variantes - o apólogo, a parábola, a fantasia, a lenda; o conto de mistério, o fantástico, o simbólico, o filólogo - todas, menos a humorística. Em muitos contos nota-se a interseção de vários planos. A história de um crime recebe luz nova de 2 mil anos de pesquisas teológicas?. A diversidade e a complexidade do pensamento de Borges encantam os pesquisadores, que buscam desvendar seus escritos. "Afinal, quem foi Borges?", questiona o ensaísta Davi Arrigucci Júnior, no início de seu texto. Ao analisar a obra do argentino sob a experiência histórica, ele aponta para uma importante definição: "Como toda grande obra de arte, a de Borges pode aspirar à totalidade do real, mas não paira nas nuvens; como as outras, tem os pés radicados na terra dos homens." As inúmeras avaliações contrastam com a parte final de Borges no Brasil, que recolhe algumas das entrevistas dadas pelo escritor a jornalistas brasileiros, especialmente a Roberto D´Ávila, no programa Conexão Internacional, exibido pela Rede Manchete, em 1985. É o momento em que a retórica agradável e afiada, iluminada pelas leituras de toda uma vida, constrói o perfil de um homem brilhante. Sobre a dificuldade de enxergar, por exemplo, disse ele à revista Veja: "Comecei a me acostumar com minhas sombras, as coisas começaram a desaparecer lentamente - e, na verdade, não me faziam falta. As imagens são mais minhas e mais esmeradas, porque completamente criadas no exercício da solidão." Já a Roberto D´Ávila, Borges desfia seu tradicional bom humor: "Inimigos pessoais não tenho. Às vezes me ameaçam de morte, mas por telefone; isso não tem importância. Se uma pessoa quer matar a outra, não vai avisá-la por telefone; seria um imbecil; bem, os assassinos são imbecis." Em outro momento, o repórter pergunta se ele é o maior escritor do mundo. A resposta é pontilhada por sorrisos: "Bem... ah, sim, claro... pobre mundo! Isso é uma prova da decadência do mundo; se eu sou o melhor, que será do mundo? Estamos em plena decadência. No século 19, eu teria passado despercebido, já este pobre século presta atenção em mim. Não, não creio ser um bom escritor."

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