Um olhar atento sobre o Nobel 68

Prêmio dado a Yasunari Kawabata motivou texto reflexivo a respeito deste que foi um dos mestres da moderna prosa do Japão

Luís Forjaz Trigueiros, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2010 | 00h00

8.4.1961

Foi atribuído há pouco o Prêmio Nobel de 1968. Pois que a tradição é uma forma inegável de criar hierarquias, pelo menos para mim, que acredito em certos valores, aceito sem esforço que existe uma "hierarquia Nobel" e que o celebrado Prêmio, credenciado, por mais de sessenta anos a distribuir louros e coroas suecas por esse mundo afora (refiro-me, evidentemente, ao de literatura), tem já todo o direito de se dar ao luxo, de vez em quando, de praticar algumas confusas arbitrariedades. (...)

Como me tem sucedido com alguns dos premiados dos ultimos anos, fui ler, após a noticia do ultimo Premio atribuido, obra - ou obras - do premiado que me pudessem, senão enriquecer (pois com o tempo vamos perdendo as ambições), pelo menos esclarecer e documentar... Não conhecia, até agora, nada de Yasumari Kawabata, como não conhecia nada, ontem, de Samuel Yosef Agnon, ou anteontem (imagine-se!) de Salvatore Quasimodo. Que desta vez o tenho feito com certa desconfiança é outro pecado que, depois destes, não me importo de confessar. As literaturas orientais assustam-me pelo perigo do exotico em que, inevitavelmente, se envolvem, para o europeu, teimoso de classicismo e de racionalismo - e o exotico é, como se sabe, um grande inimigo da arte literária como tal.

Por outro lado, apenas um livro de Kawabata encontrei traduzido para francês, aquele que é considerado a sua obra-prima, "Pays de neige". Não sendo capaz de julgar um autor apenas através dum só livro e desiludido por algumas decepções que os Nobéis de Literatura me têm dado, foi sem grande entusiasmo que me dispus a um pequeno esfôrço de atualização. Afinal não foi preciso porque o romance é de 1937, com uma segunda versão dez anos depois, e nada deve a qualquer escola, processo ou "maneira" já não, evidentemente, de hoje mas da própria época em que foi escrito. E se não me ensinou nada de novo do ponto de vista da estética ou da técnica literárias trouxe-me. Isso sim, e quanto mais importante, a tal possibilidade de enriquecimento interior que no plano da criação ficcionista só muito raramente encontro hoje. Enriquecimento que nasce em primeiro lugar dum estilo pessoal perceptivel na tradução, e no qual se tecem - e o livro é como um tecido de imagens e sugestões de poesia e subtileza - discrição e força. Uma dada atmosfera aos poucos nos envolve sem darmos por isso, como que atraiçoando nossa resistência de leitor cuidadoso ao imponderável do subentendido, um sentido das nuanças psicologicas através de alusão e observação sem andarem aos encontrões uma à outra, antes harmoniosamente se completando. (...)

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