Um olhar atento para o teatro

Lançamento dos ensaios de James dedicados à arte cênica foi ponto de partida para análise das relações que manteve com o palco

João Bethencourt, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

18.10.1958

A edição dos ensaios teatrais (1) de Henry James reaviva a lembrança de suas relações singulares com a arte cenica.

Eis um escritor que amou o teatro, que escreveu teatro e a respeito de teatro, que frequentou teatro com ardor de "aficcionado". Em suas analises do drama vitoriano mostrou-se observador argutissimo. As criticas de James possuem em alto grau aquilo que o "reviewer" de hoje tenda a perder ou a negligenciar: a evocação sensivel do espetaculo. E, no entanto, apesar de tais contactos e conhecimento, jamais logrou realizar uma de suas maiores ambições: sucesso como autor teatral.

À primeira vista teriamos aí um exemplo tipico do velho conflito: genero dramatico versus genero narrativo; raro coexistir, no mesmo escritor, talento para ambos. Assim, Henry James seria apenas um entre muitos romancistas que amaram o teatro sem saber expressar-se através de suas convenções. Dickens, por exemplo, cujos romances têm tanta coisa de cenico, e que possui muito mais que Henry James o poder de dar voz, figura e caracterização a sentimentos e a estados de alma, foi incapaz de escrever uma peça que se comparasse aos seus romances. (...)

Realmente, a disciplina do drama é pesada, esterilizante até, para quem se acostumou a ou tem necessidade de um maior espaço de expressão. Limitar-se a uma situação central, daí fazer nascer a ação principal, unica; subordinar-lhe todas as acessorias eventuais; concentrar tempo, espaço, numero de personagens, não são condições propiciatorias à inspiração do romancista. O seu senso de realidade rebela-se contra as coincidencias arbitrarias que o drama lhe impõe; recusa as motivações que têm de ser imediatas, cumulativas, e as improbabilidades que, às vezes, se disfarçam num jorro de lirismo, de comicidade ou de emoção.

No drama, as varias sugestões poeticas ou filosoficas só podem ser exploradas na medida em que fazem andar a ação; no romance, o menor incidente pode desenvolver-se quanto o escritor deseje. Fará observações, comentarios, aparições pessoais; elas constituirão, talvez, a melhor parte da obra. Tudo que interessa a sua sensibilidade é passivel de desenvolvimento; as limitações de seu folego criador.

O curioso em Henry James é a plena consciencia destas diferenças, não só como critico mas também como artista. O autor de "The Wings of The Dove", quando tenta o teatro, transforma-se, adapta-se às suas convenções, compõe para a cena. Procura mesmo atingir o exito comercial. (...)

(1) "The Scenic Art - Notes on Acting and the Drama: 1872-1901"

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