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Um olhar além do muro

Brasília recebe mostra de artistas da antiga Alemanha Oriental

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

BRASÍLIA

Era complicado ser artista na antiga Alemanha Oriental. Para aqueles que não se alinhavam política e ideologicamente com a ditadura socialista e sua estética burocrática, restava a vida à margem do sistema, com todas as adversidades decorrentes: um muro dividia Berlim, o país e o mundo pela metade. Divulgar o próprio trabalho internacionalmente ficava praticamente impossível e era difícil obter materiais. A abertura de uma exposição devia passar pelo crivo do Estado - e qualquer sinal de subjetividade logo poderia ser confundido com subversão.

Os tempos da República Democrática Alemã (RDA) já ficaram para trás, para sorte daqueles que podem ver, apreciar e comprar hoje os trabalhos de artistas como Veit Hoffman, Hans Scheib e Helge Leiberg, que se reúnem no Brasil para a exposição Observadores do Horizonte, aberta ao público até dia 28 no Museu da República, em Brasília. Os organizadores vão levá-la depois ao Museu Rodin, em Salvador, e negociam sua ida a outras cidades, como São Paulo.

"São artistas de vanguarda, que não eram oficiais do Estado e tampouco se enquadravam no realismo socialista", diz o colecionador de arte Francisco Chagas. Ele conheceu os três durante o período em que trabalhou no Departamento Cultural da embaixada brasileira na Alemanha Oriental, entre 1984 e 1991. De admirador, virou amigo e hoje serve até como guia turístico, devendo acompanhá-los em uma aventura pelo pantanal nas próximas semanas. A turma de Observadores é completada por outro artista e amigo, o alemão Michael Müller, curador da mostra que traz cerca de 50 peças - entre pinturas e esculturas - para dentro da oca projetada por Oscar Niemeyer, um militante comunista. O diretor do museu, Wagner Barja, admite que há, sim, uma certa ironia do destino, mas nada que a própria arte não seja capaz de superar. "A estética possibilita a convivência pacífica de ideologias contrárias. É a prova de que o mundo evoluiu", afirma Barja, orgulhoso de receber no local uma prévia do que deve ser O Ano da Alemanha no Brasil, marcado para 2013. E já que se está falando de datas, um outro 13 circunda a exposição - o 13 de agosto de 1961, quando, há 50 anos, erguia-se o muro.

"Felizmente, é passado", afirma Hans Scheib, um dos alemães pioneiros no uso de madeira para criar esculturas. Scheib diz que, no fundo, é um escultor de nariz, olhos, bocas, orelhas e pés - pensa em imagens: um acontecimento, uma pessoa que passa correndo, a imagem de um filme. Suas figuras são reflexivas e expressivas, carregadas de certa melancolia. "Quando faço uma escultura, ela sempre quer mais de mim", conta ele, que, em 1985, mudou e foi tentar a vida na Alemanha Oriental. Assim como Scheib, Helge Leiberg foi para o outro lado do muro. É um apaixonado por música, especialmente free jazz, uma influência que pontua cada traço do seu trabalho, repleto de ritmo, vida, cor, improviso. "Meu trabalho tem a ver com escrever figuras, a caligrafia das pinturas, uma escrita sobre sentimentos e tensões", revela ele, que, claro, gosta de bossa nova.

Recém-chegado a Brasília - falou com o Estado menos de 24 horas após chegar à capital, enquanto montava a exposição -, ficou impressionado com a amplidão do cenário: "Tem tanto espaço entre um edifício e outro, que dá sempre para observar o céu". Já o trabalho de Veit Hoffman é influenciado pela tradição asiática, que ele define como a "maneira simples de viver", a "modéstia" e a "nobreza do caráter". Para Observadores, o alemão apostou em uma criação pessoal - uma combinação de seda chinesa com papel japonês -, com cores criadas por ele mesmo, e motivos brasileiros, uma daquelas pontes culturais impensáveis nos tempos da RDA. Esteve recentemente em Morro de São Paulo, na Bahia, e uma cena impressionou-o: quatro meninos sonorizando a rua com latas encontradas no caminho. "Eram muito talentosos. Hoje em dia tudo vem pronto, o brinquedo pra criança vem pronto. Na Alemanha recebemos tudo pronto, as pessoas não observam mais os detalhes. E aqueles meninos conseguiram do nada fazer algo muito bacana", comenta o artista-artesão. Antes de vir ao Brasil, já conhecia a literatura de Jorge Amado - a leitura era uma das formas de sobreviver à repressão de décadas atrás. "Hoje (com a Alemanha unificada), é como se tivéssemos uma segunda vida, em que tudo é possível", comenta. O horizonte não tem mais limites.

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