Um olhar aceso no âmago da escuridão

Leia trecho de O Chamado do Cego, que se baseia num personagem de Amor, obra-prima da narrativa clariciana

SILVIANO SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h11

Se casa às três da tarde. Todos os dias. Faça sol faça chuva. Não há motivo para eu sair de casa a essa hora ou em dia que não me convida ao prazer da caminhada pelas ruas de Botafogo, a não ser o fato de mamãe me perguntar, depois de o cuco cantar três vezes na sala de estar, por que você não vai dar a sua voltinha pelo Largo dos Leões.

Está na hora - insiste ela, se não me mexo.

Quando estou para abrir a porta do apartamento, escuto sua voz de novo. Não vá esquecer a bengala na chapeleira. Às vezes a esqueço. Não é por esquecimento que a esqueço. Quem é que gosta de sair para passear com uma bengala branca? Está na cara que eu sou quem eu sou. A bengala branca é o pior dos chamarizes. Os passantes me encaram como se fosse bicho do mato em exposição numa jaula do Largo dos Leões. Pressinto o susto e pior! a piedade. Mais que os pressinto, tenho certeza. Interjeição é interjeição, nada é mais espontâneo no mundo. Foge do coração sem que a pessoa se dê conta.

Mamãe nunca diz para eu não esquecer o guarda-chuva quando está chuviscando. Ela sabe que não o esquecerei.

Ao sentar-me no banco para relaxar as pernas, deixo a bengala dependurada para o lado da relva e não do passeio. Se não a esqueço em casa, escondo-a quando posso. Às vezes peço ao dono da banca de jornal para guardá-la. Pego-a na volta, digo, quando for pegar A Tribuna da Imprensa para a mamãe.

Mamãe pensa diferente. Sempre diz que um dia, sem a bengala, você ainda será atropelado por um doido ao volante. Quando ela diz doido ao volante, não tem jeito, penso logo em ás do volante. E é o nome de Chico Landi que me vem à mente, junto com o de Fangio. Mamãe não pode adivinhar que ser atropelado no Humaitá pelo grande vencedor do circuito de Bari, na Itália, seria a glória para o temerário homem da bengala branca.

Penso que canso mamãe. O dia inteiro em casa, ao seu lado, sem fazer nada de útil. Tem o direito de ter o apartamento só para ela, ainda que por algumas horas da tarde. Ela deve ter o direito de fazer o que bem entende sem ter de pensar que alguém da sua intimidade escuta os passos e os ruídos e adivinha tudo o que faz nas horas de folga. A vida íntima não é diferente da vida cotidiana? Será que ela não luta por conseguir manter como só suas algumas horas que serão vividas em total segredo de todas as pessoas, até do filho?

Mamãe é tolerante, embora nunca mais me tenha dado banho. Contratou a empregada da vizinha para vir dar-me banho pela manhã. Mamãe tem medo de que eu perca o equilíbrio e escorregue no piso ou na própria banheira. Eu também passei a ter medo e a exigir que a empregada me desse banho todos os dias. Só tiro a roupa depois que ela tranca a porta por dentro.

Sei que a empregada é preta retinta. Sei por que ela me disse. Disse-me também que, mesmo se eu pudesse enxergá-la, eu não a veria. Sua mãe me proíbe - disse-me ela - de acender a luz do banheiro e de abrir a janela que fica atrás da privada e dá para os fundos do prédio. Meu banho de chuveiro é na penumbra e, nas manhãs geladas do meio do ano, quando o chuveiro elétrico está no máximo, o banheiro parece um salão de banho turco, é o que a preta retinta me diz. Saio toda suada daqui, precisando dum banho. Posso ensaboar-me e me enxugar sem problema, mas mamãe insiste em dizer que quer me ver limpo e asseado, como o filho de Deus que sou.

Aliás, de há muito Terezinha deixou de ensaboar o que ela chama de minhas partes feias. Ordens de sua mãe - ela se justificou no primeiro dia e nunca mais voltou a tocar naquelas partes. Segura as mãos, mas não consegue segurar a língua. Vira e mexe toca no assunto. Mamãe tem razão. Quando ela me ensaboava as partes feias, era eu que tinha de me controlar. Fazia de conta que estava na rua e começava a chover, a ventar e a fazer frio. Imaginava que tinha de correr de volta ao apartamento antes que apanhasse um resfriado. Ensaboado, debaixo do chuveiro, controlo-me. Fico como se estivesse perdendo o fôlego por causa da correria. Fico resfolegando, que nem cavalo no Jóquei Clube depois da corrida.

Terezinha me perguntava se cego já nasce cansado. Aí eu já não pensava em mais nada, a não ser em reganhar a respiração normal.

Não conseguiria bater uma punheta na frente dela, embora não me faltasse a vontade, que deixo guardada lá dentro de tudo o que tem de ficar bem escondidinho na vida de todos os dias.

Terezinha insiste em me perguntar se eu sinto que estou pelado. Ela acha que, como sou cego, não sei quando estou vestido e quando estou sem roupa. Gosta de certificar-se se sei que estou assim ou assado. Depois de ela me tirar a roupa e de eu lhe assegurar que sei que estou assim ou assado, pergunta-me se eu, mesmo sendo cego, consigo ver os olhos de Deus e se passo pela vergonha que Adão e Eva passaram no paraíso, antes de serem expulsos por ordenação divina.

Ela não conversa comigo de maneira franca e direta sobre as partes feias. Enquanto me ensaboa ou me enxuga, fica resmungando que cego não deve saber o que é o pecado. Se soubesse, ia sentir vergonha, e eu não tinha vergonha alguma de me exibir para uma desconhecida. A inocência é a forma de misericórdia que Deus encontrou para compensar o ser humano da cegueira. Mais ela resmunga, mais me sinto feliz, embora eu saiba que ela, no fundo, está me pregando uma baita duma mentira.

Diz também que aprendeu com o padre no confessionário as palavras que fala. Ela lhe disse numa tarde e desde então passou a repetir que todos os dias dá banho num vizinho cego. Num marmanjão. O padre lhe garante que mulher dar banho em homem necessitado não é pecado. Deus sabe bem o que Ele nos manda e o que Ele não nos manda fazer, mas mesmo assim ele lhe passa a penitência de dez ave-marias, cinco padre-nossos e uma salve-rainha.

Ela discorda do julgamento do padre. Contrapõe à penitência a garantia de que nunca toca com maldade nas partes do corpo de homem que não são as partes do seu homem. Continua resmungando. E aí me garante que não é filha de Eva. Jura por tudo o que é mais sagrado.

Ela acha que o padre acha que ela tem a mente suja e que o homem cego, mesmo sendo um marmanjo, tem a mente limpa. Um dia perguntou ao padre se o cego tem a mente limpa só porque não enxerga. Ela se lembra da frase que ele lhe disse antes de fazer o pelo sinal da santa cruz que dava por terminada a confissão: É uma benesse de Deus poder remover dos olhos, para todo o sempre, a imagem profana. A misericórdia de Jesus é infinita.

Penso também que mamãe pensa que tenho de arriscar-me a sair sozinho em terreno estranho às quatro paredes do apartamento. Se eu não exijo nada dela por que será que ela exige tanto de mim? Por que será que ela não gosta de me dar a mão na rua? Saio sozinho, ela sai sozinha. Caminho sozinho pelas ruas do Humaitá, ela caminha sozinha pelas ruas de toda a cidade. Tenho de sair de bengala branca e ela sai sem bengala, só com a rede para as compras.

Antes, aos sábados pela manhã, eu saía com o papai. Pegávamos o 21 aqui em frente de casa e íamos sacolejando pelos trilhos até o Jardim Botânico.

Papai sentia prazer em segurar minha mão e me mandar atentar para o cheiro das árvores, para o zumbir das abelhas e o chilrear das aves. Dizia-me que ficava siderado com a beleza e a diversidade da natureza. Deus é pai, e o homem é uma peste... - me diz - penso assim porque tenho vontade de deitar com você na relva e lá está a tabuleta a nos avisar que é proibido pisar na grama. Dá multa pisar na grama.

Em companhia dele, cada detalhe do Jardim Botânico me parecia estranho. Suave demais, grande demais.

Caminhávamos os dois por uma das aleias do jardim e aí apareceu um gato. Vinha de detrás de uma árvore e devia estar com fome. Eu era então menininho. Papai me disse olha o gato! sem saber que eu não poderia ver o gato. Olho o gato e lhe digo não vejo o gato. Ele me diz pode ver sim, pode sim, garanto. Pela voz dele, posso ver o gato e, pelas palavras dele, posso sentir como o pelo do animal é macio e fofo. Ele anuncia que o gato angorá vem caminhando na nossa direção. Ele gosta da gente. Apanha-o no chão. Como é dócil o bichano, diz, e o acarinha e me pede para que eu o toque também. Veja como ele é belo e amigo.

Seu pelo é macio e fofo. Passei-lhe a mão direita.

Não é um gato, é uma gata - ele descobre e me diz.

Aí ele solta a gata no chão, que volta a caminhar pelo Jardim Botânico e voltamos os dois felizes para casa.

Penso ainda que, desde que papai morreu e mamãe se aposentou, ela sente falta da Tribuna da Imprensa que ele trazia debaixo do braço e lia todo santo dia. Para o seu pai, Lacerda está no céu e Deus na terra - me diziam os vizinhos no elevador. Nunca a tinha visto ler jornal. Papai é que chegava com o jornal na hora do jantar. Agora, mamãe se acostumou a lê-lo antes do jantar e a escutar, depois do jantar, o Repórter Esso na Rádio Nacional.

Antes, se os dois não fossem ao cinema na sessão das oito, ficavam conversando até que a noite caísse de vez. Quando iam ao cinema, não me deixavam sozinho em casa. Tínhamos empregada e ela ficava tomando conta de mim até eles voltarem. Pela conversa deles ficava sabendo do que acontecia no mundo, no Brasil e no Rio de Janeiro. Quando papai falava demais em política, mamãe dizia que não tolerava política. Quando papai falava demais em futebol, mamãe dizia que não tolerava futebol. Papai torcia pelo Fluminense e lembro que execrava três dos jogadores do Flamengo, Bria, Biguá e Pirilo, salvava Zizinho, um craque aquele. Ele voltava ao futebol e lhe dizia escuta mulher, vencemos de goleada o Flamengo, por 4 a 0, há que comemorar. Depois de muita prosa, passavam os dois da sala de estar ao quarto de dormir como o próprio dia passa para a noite e depois volta a ser dia. (...)

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