Um ofício escrito no plural

O terceiro e último ensaio da série que traça os contornos da produção nacional contemporânea aponta para uma crise da crítica, atividade que tem sido marcada especialmente pelo ecletismo

Francisco Foot Hardman, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

A crise da crítica cultural e literária no Brasil contemporâneo nada tem de singular, ela é parte da crise geral de produção do conhecimento nas ciências humanas e, igualmente, da crise dos paradigmas modernos de invenção, representação e valor nos diferentes domínios do simbólico. Institucionalmente, a mercantilização acelerada do trabalho intelectual, processo antigo, trouxe aos espaços tradicionais de cultura humanista os ditames tecnicistas e burocráticos da produtividade serial e mecânica. A decadência em larga escala do modelo forjado na Universidade europeia formadora do espírito esclarecido/esclarecedor, e do pensamento integral a ele subjacente, cedeu terreno ao especialismo técnico e instrumental das cadeias produtivas externas, que certa ideologia arraigada teima em denominar "sociedade". A irrelevância social crescente da Universidade pós-68 nada mais é que a face visível desse processo de largo espectro. Declinantes de valor os espaços das humanidades, são declinantes também seus atores, ações e, sobretudo, palavras.

A aceleração globalizada das trocas e dos sistemas informáticos, ao consagrar a noção de "tempo real", nada mais fez que destruir ou desfigurar as paisagens e ambientes em que temporalidades próprias ao que se convencionou qualificar - nas teorias humanistas clássicas - como produção poética, artística ou cultural puderam, durante largo período, vicejar. É notório que categorias herdadas das noções distintivas do valor estético como associado à "alta cultura" de há muito esboroaram. Há pelo menos meio século vários ensaístas têm explorado as múltiplas facetas dessa crise, de Barthes, Morin e Foucault a Bourdieu, Derrida, Rancière, Agamben e Boaventura Santos; de Richard Hoggart, Raymond Williams e Stuart Hall a Jameson, Eagleton e Aijaz Ahmad. E, isso, para não retroceder à constelação luminosa da Escola de Frankfurt.

Nada disso constitui propriamente novidade. Mas as reações a essa mudança, no Brasil e - por que não dizer? - também, talvez, em algumas zonas culturais da América Latina, já que qualquer generalização, aqui, pode ser discutível, oscilam entre a reação quase autista à extinção dos paradigmas dominantes da literatura ou cultura como distinção (de classe, nação, raça, região, religião, Estado) e a adesão cínica ou simplesmente deslumbrada ao "tempo real" da cultura de massas e da indústria cultural tomadas como signos de uma modernidade tão reificada quanto destituída de diferenciações reais, espacializada na instalação do objeto como efeméride e como superexposição da imago. "Tempo real" que significa o "tempo zero" da velocidade dissipadora em todas as escalas (mundo, nação, cidade), alargando a divisão social, a fragmentação dos sentidos e o declínio do espaço público, como sugere Josefina Ludmer, nesse seu ensaio inspirador e radical na forma, Aquí América Latina: Una Especulación (Buenos Aires, Eterna Cadencia, 2010) - embora limitado, na geografia latino-americana de seu "aqui", a quase nada além do estuário do Prata.

"Tempo zero": este é, também, o do monolinguismo do império, o da expropriação de toda linguagem inventiva pelo Estado da sociedade unidimensional, o da substituição inexorável do sentido do valor histórico pelo da sensação espetaculosa; o de imaginário público coletivo pelo de eficiência privada, o de pesquisa científico-cultural inovadora pelo de inovação tecnológica corporativa; o de perspectiva crítica pelo de função captadora de recursos; o da lógica do processual pela do eventual; tempo, também, da neutralização das guerras culturais, do espaço público e da política como meios, em favor, respectivamente, da cultura (e economia) da guerra, da publicidade e da maquinaria estatal-financeira como fins.

No Brasil, o declínio do ensaísmo, cuja primazia apoia-se em conceito abrangente e híbrido, entre o social e o literário, acompanhou de perto o fim da cultura humanista e do publicismo como vocação. A burocratização disciplinar e departamental da vida universitária e a expansão da mídia televisiva estão entre os elementos de grande impacto sobre a antiga aura do intelectual literato.

A esse propósito, o final dos anos 50 é significativo e a coincidência internacional entre algumas datas, emblemática, também em seus contrastes. Richard Hoggart, na Inglaterra, em 1957, publica The Uses of Literacy (As Utilizações da Cultura) e, em 1958, Raymond Williams traz à luz Culture and Society (Cultura e Sociedade). Ambos estão nos fundamentos do matricial Centro de Estudos Culturais Contemporâneos, criado em Birmingham, em 1964 e, sintomaticamente, extinto em 2002, depois de resistir a sucessivas ondas de ataque do neoliberalismo hegemônico. No Brasil, Raymundo Faoro, em 1958, publica Os Donos do Poder, a tentativa mais ampla de leitura do País desde os anos 30, seguida, em 1959, pelos ensaios fundadores de Antonio Candido e Celso Furtado, ambos tributários do conceito histórico-dialético de formação - da literatura brasileira, num, e econômica do Brasil, noutro. E ambos precedidos pela monumental história dirigida por Afrânio Coutinho em A Literatura no Brasil (1955). Esse ciclo fulgurante pareceu encerrar-se, em 1966, com A Revolução Brasileira, de Caio Prado Júnior, em plena contracorrente da ditadura militar. A que se poderia somar, deslocado no tempo, o comovente delírio visionário de Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro (1995), quando o anacronismo pulsante da ideia de comunidade nacional vira uma quase ficção. Os impasses identitários do nacional no ensaísmo desses autores eram a expressão, aqui, do completo deslocamento dos sentidos históricos da cultura, percebidos com argúcia pelos marxistas heterodoxos do Reino Unido. E para radicalizar tal espectro, talvez valesse retroceder a Josué de Castro e seu genial libelo Geografia da Fome (1946), levando a locação da cultura à lama do mangue.

A geração de ensaístas que lhes sucedeu, sempre com brilho, defrontou, no entanto, mais fortemente, entre outros limites, os da compartimentação dos saberes acadêmicos e pulverização do valor da cultura literária em prol do imediatismo midiático e da aparição dos curadores patrocinadores como guardiães da nova economia cultural. Quando falamos dela nos referimos, entre muitos outros, no campo da literatura brasileira, a Alfredo Bosi, Antônio Arnoni Prado, Augusto de Campos, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Júnior, Haroldo de Campos, Heloísa Buarque de Hollanda, João Adolfo Hansen, João Luiz Lafetá, José Guilherme Merquior, José Paulo Paes, Luiz Costa Lima, Luiz Roncari, Roberto Schwarz, Silviano Santiago e Walnice Nogueira Galvão, observada aqui tão só a ordem alfabética. Tendo sobrevivido, com galhardia até, à redução do tempo-espaço do ensaio devido ao enquadramento imposto pelos formatos padrões de aferição da produção acadêmica importados das ciências exatas e tecnológicas, e mantendo, basicamente, posição de independência em face da força cooptadora do Estado ou de ideologias cerradas, requisito obrigatório para o exercício do ensaísmo como gênero de crítica cultural, eles são representantes, muita vez não sem certa amargura, de um universo letrado e culto em célere processo de depreciação social e política. O que só pode fazer aumentar o interesse pela atualidade do livre criticismo que, em condições adversas, têm conseguido produzir.

Mas é hora de mencionar, antes de concluir, a minha geração, a nascida a partir dos anos 50, um pouco antes ou depois. Não podendo desenvolver análise extensa, farei menção ao que me parece digno de realce e contraponto (diante da terra arrasada da crítica atual), mas, para não parecer indulgente, também impasses e riscos na trajetória. Ecletismo e pluralidade de tendências e temas, para bem e mal, têm sido seu traço marcante, no "tempo irreal" do imaginário e das guerras culturais.

É assim que leio, por exemplo, a engenhosa construção de uma "verdade tropical" em José Miguel Wisnik, generosa e poética, cordial e neorromântica, mas talvez um tanto tardia em relação aos imperativos da globalização, em que já não tem cabida a "malemolência do método" como correspondência epistemológica de uma pressuposta essencialidade nacional-malandra. Em outro polo, Alcir Pécora vale-se de erudição e repertório literário notáveis, mas o abuso da negatividade poderia conduzir sua crítica em direção a um insulamento autocomplacente, a uma condição de "bad boy" feliz em sua fúria incompreendida, risco de que, felizmente, tanto a inteligência consciente dos limites do verbo, quanto a leitura voraz e sem fronteiras parecem afastá-lo.

Em direções outras, lá na eternamente cidade-maravilhosa, há que mencionar, entre vários, Beatriz Resende, Vera Lins, Ítalo Moriconi e Denílson Lopes, abertos às produções da ficção, poesia e cinema brasileiros contemporâneos, inclusive com olhar para as vozes que vêm das periferias urbanas e das novas linguagens não escritas, o que é alto mérito, mas alguma vez ecoando certa euforia algo imprudente como ato crítico, inclusive na recepção das várias frentes teóricas da pós-modernidade. Flora Sussekind, por outro lado, mantém a crítica do naturalismo nacionalista em dia, sempre voltada para os experimentos de mescla das várias linguagens modernistas, e isso com uma amplitude de leituras que, somadas a pesquisa documental valiosa, tornam o resultado impressionante, o que em geral a afasta, não sem riscos, de certa presunção sectária tão comum à melhor tradição da antiga Corte.

Da velha Bahia, vale nomear as presenças de Antonio Risério e Mirella Márcia Longo Vieira Lima, sempre abertos às metamorfoses do poético, mas também caudatários de afro-luso-tropicalismo renitente, no aconchego da baianidade rediviva que vê colidir a utopia do expresso 2222 com o neocoronelismo urbano.

Desafio diferente, embora similar, é o do crítico de Belo Horizonte, Wander Melo Miranda, situado entre dois fogos: o da celebração autorreferente da mineiridade e o da sedução viajeira da modernidade "café-com-leite" tardia. O projeto editorial da UFMG, dos mais inovadores nas humanidades no Brasil, parece ter sido, até o presente, sua melhor resposta ao dilema.

Na trilha Florianópolis-Buenos Aires, há que referir o percurso original de Raul Antelo, sempre antenado com as teorias críticas contemporâneas, arrancando a golpe de fórceps o necessário diálogo entre a produção brasileira e a hispano-americana, atento para isso a fontes primárias quase sempre insuspeitadas. Na escrita que se quer radical, muita vez o solipsismo parece vencer a clareza, mas, felizmente, o crítico costuma sempre voltar à terra (ou ao mar).

Na geração que me toca pelos laços do tempo, creio que o desafio reside em evitar, tanto o gesto de "nostalgia da extinção", que acaba por tomar o moderno morto como novo parnaso, relicário de uma literatura-troféu, guardado sob o fundo de um coro fervoroso, quanto o gesto, entre cínico e triunfante, de adesão às atrações do dia, que glamouriza tudo no triturador da indistinção, e torna o literário o troféu da hora, da semana, do mês, do ano, polido como a lápide do abatedouro, até que novo evento, entre sanhas editoriais e feiras beautiful people, descarte-o por outro cartaz.

No primeiro caso, o espectro das "juvenilidades auriverdes" continua a assombrar o superego de nossas academias, passados 90 anos da encenação do modernismo paulista. No segundo caso, a disponibilidade de adaptação à economia cultural torna o gesto internacionalista apenas um disfarce proverbial para o deslumbre cosmopolita comum a qualquer cata-vento de província. A superação desse impasse não depende nem de voluntarismo capaz de reafirmar o primado do autoral contra a impostura do ideológico (como parece ingenuamente crer o dissidente e prêmio Nobel Gao Xingjian, no interessante texto Ideologia e Literatura saído em 6/8 aqui no Sabático), nem da restauração de uma crítica literária que reviva a era do rodapé convertido em pedestal (como parece apostar, anacrônica, reverencialmente, João Cezar de Castro Rocha em Crítica Literária: Em Busca do Tempo Perdido?, Argos, 2011).

Creio poder vislumbrar - sem "wishful thinking", espero -, entre pesquisadores mais jovens, exemplos apreciáveis dessa dupla recusa às mitologias entronizadoras. Mas isso seria assunto para outra história.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.