Um novo palco para Anna Karenina

Adaptação da obra de Tolstoi é surpreendente reimaginação teatral de Joe Wright

Pedro Caiado, especial para o Estado,

15 de março de 2013 | 02h48

Para muitos, a nova versão de Anna Karenina que estreia nesta sexta-feira, 15, será um choque. Logo no início, o público vai se deparar com atuações que podem parecer de um teatro amador. Propositalmente, todos os atores exageram seus papéis: como o ator Matthew Macfadyen no papel do bem-humorado Oblonsky; Aaron Johnson e seu viril Vronsky e mesmo Keira Knightley e sua melodramática Anna. Personagens de um clássico em nova adaptação que se passa toda dentro de um teatro – em estúdio.

A ideia que saiu da mente do londrino Joe Write, é, acredite, boa notícia. Não fosse o senso de risco do diretor para recontar uma história pra lá de conhecida, correríamos o risco de assistir a mais do mesmo. Apesar da reinvenção da obra publicada em 1877, continuam presentes os elementos que a tornaram um clássico da literatura russa à prova do tempo, por diversas gerações: o desespero e o tormento da socialite e sua infidelidade em uma sociedade de tolerância zero.

A ideia de arriscar partiu do diretor britânico Joe Wright, genuinamente interessado por histórias de época. Ele dirigiu os excelentes longas Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, também estrelado por Keira Knightley. Londrino e disléxico, Wright começou a sua carreira em um teatro de marionetes em Islington, Londres, fundado por seus pais. Antes de se tornar diretor, ele atuou nos palcos e em frente das câmeras.

A sua Anna Karenina transporta o livro de Leon Tolstoi para dentro de um teatro, construído em um dos estúdios Shepperton, na Inglaterra (o mesmo usado em Guerra nas Estrelas). “Gosto de me concentrar em um único espaço físico”, revela, tentando explicar a sua ideia ousada ao Estado, em Londres.

“O teatro do filme é como se fosse uma companhia de atores. Acredito que há uma referência ao teatro de marionetes dos meus pais, em que tudo era possível”, explica ainda. E ressalta: “A ideia é de que as pessoas estariam vivendo em um palco da sociedade russa. Era uma vida artificial, como se todos estivessem representando algum papel”.

“Depois que o roteiro de Tom Stoppard (de ‘Shakespeare Apaixonado’) ficou pronto, comecei a sondar casarões na Inglaterra para tentar simular a Rússia daquela época. Também fui ao país visitar palácios, mas comecei a ficar deprimido. Sentia que estava fazendo algo que muitos já tinham realizado”, conta. “Então, tive a ideia de fazer tudo ambientado em um teatro, sem mudar o roteiro original.” O teatro do filme é um lugar polivalente que também se transformou em pista de gelo, de corrida de cavalos, em jardim e até em estação de trem.

“O filme já estava na minha mente havia dez anos. Sinto que o livro se tornou muito mais atraente para mim, atualmente, depois que cheguei aos 40 anos, que me casei (com a citarista Anoushka Shankar) e que tive um filho”, filosofa.

Para apresentar a diferente ideia aos executivos da Universal, ele pensou em uma estratégia. “Meu encontro era logo depois do que trataria do orçamento de Branca de Neve e o Caçador (US$ 175 milhões). Então pensei que só teria alguma chance se conseguisse me reunir antes com os executivos”, recorda. “Eu entrei, expliquei rapidamente que seria ambientado em um teatro e custaria US$ 30 milhões. Talvez mais preocupados com os US$ 175 milhões da Branca de Neve, disseram ‘tá, tá, tá”, falou entre gargalhadas.

Pouco do filme tem origem na Rússia: os figurinos foram reinventados, o sotaque é britânico e quase nada foi filmado por lá, com exceção de quatro dias de cenas externas. Curiosamente, a maioria dos figurantes é russa. “Coloquei anúncios em vários jornais russos de Londres para achar figurantes”, ressalta ele, informando ainda que 15 mil pessoas apareceram.

O filme é a terceira colaboração entre Wright e Keira Knightley, pela qual ele se derrete em elogios. “Ela é brilhante, corajosa, nobre”, confessa, dando a ideia de que continuarão trabalhando juntos, como a dupla Tim Burton e Johnny Depp.

Em tempos de abundância de clássicos nas telas – Grandes Esperanças, O Grande Gatsby e Os Miseráveis –, teria sua ideia aproveitado uma tendência? “Não presto atenção, isso é para os críticos”, argumenta, acrescentando que a indústria cinematográfica é um terreno perigoso. “Sou inseguro e, se ligar muito para o que os outros dizem, posso ficar obcecado, o que é muito prejudicial.”

Quem, afinal, seria o herói deste filme? “Levin. Ele é o autorretrato de Tolstoi. Eu me identifico com ele”, comenta revelando que tem similaridades com o autor russo. “Ele não ligava para a sociedade e procurava uma maneira mais autêntica de viver. Mas conseguiu ser aceito e, para mim, aceitação é a felicidade”, conclui o diretor Joe Wright.

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