Um novo olhar sobre o moderno

Itinerário de Uma Falsa Vanguarda traça rota da estética literária no País

Francisco Foot Hardman, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

O maior diferencial crítico deste livro notável está no modo como a história literária e cultural é trabalhada para produzir nova visão sobre o mosaico de discursos que compuseram a cena do que se convencionou chamar modernismo brasileiro. A edição resumida da tese defendida por Antonio Arnoni Prado na USP em 1980, publicada em 1983 pela Brasiliense, era na prática, outro livro. Agora, o painel traçado ganha em vivacidade e elos iluminadores, inclusive diante de novas exigências críticas que os sentidos contraditórios de "vanguarda" e "modernismo" hoje suscitam. Até os problemas de interpretação ficam mais claros. Por exemplo: a linha divisória estabelecida pelo autor entre "revolucionários" e "reformistas" da Semana de 22 se torna problemática, não só pela porosidade entre esses grupos, mas também pela simples constatação dos limites ideológicos e estéticos embutidos na ilusão autocomplacente que todo sonho de vanguarda carrega consigo.

Esmiuçando a rede menos óbvia de revistas como A Meridional, editada em 1899, até América Brasileira, ou Movimento Brasileiro e Lanterna Verde, na passagem dos 30, Arnoni Prado palmilha os discursos literários na era preferencial dos manifestos. Vários coadjuvantes da festa modernista passam a protagonizar a cena: Elísio de Carvalho, Graça Aranha, João do Rio, Ronald de Carvalho, Plínio Salgado, etc. Mereciam tal ingresso? Mas já lá no Teatro Municipal, naquela famosa Semana de 22, ninguém menos que Manuel Bandeira estava a clamar que, para essa festa, todos os sapos podiam entrar.

Vieram depois as divergências, algumas delas de não pequena monta. Curiosamente, no entanto, todas girando em torno das mesmas questões de fundo que atravessam os tempos: o papel do intelectual e suas relações com o Estado; como constituir os dispositivos da cultura nacional e popular; a definição do espírito moderno e da modernidade literária; a presença do Brasil no contexto internacional e, em particular, latino-americano.

Esta edição de Itinerário é um acontecimento a ser saudado. Se o lermos a sério, veremos despontar aqui algumas das configurações de arte e pensamento que produziram e produzem as elites culturais dos anos 1920-30, São Paulo à frente, como a face mais moderna do País. E como a mais reacionária também.

FRANCISCO FOOT HARDMAN É PROFESSOR DE TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA DA UNICAMP. AUTOR, ENTRE OUTROS TÍTULOS, DE EUCLIDES DA CUNHA - POESIA REUNIDA (UNESP)

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