Um novo olhar para um clássico brasileiro

Nos 30 anos de 'Viva o Povo Brasileiro', edição terá ensaio de Rodrigo Lacerda

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h06

A história é clássica e era repetida por João Ubaldo Ribeiro sempre que alguém perguntava sobre sua motivação para criar Viva o Povo Brasileiro: "Eu queria escrever um livro grande". E é com ela que o escritor e editor Rodrigo Lacerda abre o texto que produziu para a edição comemorativa do romance que completa 30 anos em dezembro. Previsto para novembro, o volume trará, ainda, ensaio de Geraldo Carneiro já publicado. O anúncio da nova edição foi feito na sexta-feira, quando o escritor e cronista do Caderno 2 morreu.

Havia outras duas motivações para o desejo de Ubaldo de fazer um romanção, diz Lacerda: "Segundo o escritor, o ímpeto de escrever 'um livro grande' era uma resposta à prevenção do pai contra livros 'que não ficam em pé', e um troco à provocação do editor Pedro Paulo Sena Madureira, que lhe teria dito certa vez: 'Vocês escritores brasileiros só escrevem essas merdinhas que a gente lê na ponte aérea'".

Lacerda era um adolescente de 15 anos quando o livro foi lançado. O pai dele, Sebastião Lacerda, foi um dos editores da obra e viajou a Itaparica com a missão de levar para o Rio de Janeiro os originais em que Ubaldo trabalhava havia três anos. A história também é lembrada em seu texto: "Antes, porém, em clima de festa, o calhamaço foi levado a uma venda e devidamente pesado, atingindo a impressionante marca de 6,2 quilos. Uma vez formatado, o livro alcançaria 673 páginas, no mínimo três vezes o tamanho de seus predecessores".

O esforço - o escritor tinha se mudado com a família do Rio para Itaparica para se concentrar na obra e gastar menos - foi recompensado. Menos de 15 dias depois de chegar às livrarias, a obra já estava entre as mais vendidas. Foi sucesso de crítica e de público no Brasil e no exterior.

Em sua apresentação, Rodrigo Lacerda conta como era o cenário do País à época em que Viva o Povo Brasileiro foi escrito e as condições em que Ubaldo trabalhou na obra. Situa o romance dentro da bibliografia do autor e o analisa. "João Ubaldo fez dele o grande entroncamento literário de sua carreira, onde todos os outros livros se encontram. Estes, em suas respectivas vertentes, podem ser obras-primas, e as opiniões sobre quais atingem esse nível de grandeza estão condenadas a variar. Mas nenhum deles se propõe a ser um mostruário tão completo dos talentos do escritor", escreve. E completa: "Viva o Povo é o grande manancial, mas é simultaneamente o escoadouro de tudo. É uma espécie de nave-mãe, que perde em velocidade para os deslocamentos das naves menores, mas paira majestosamente sobre elas. Nele, o que o escritor havia feito antes reaparece, e o que faria depois tem seu anúncio."

Lacerda comenta, ainda, sobre as características do autor, de sua obra e de seus personagens e diz que o tom geral é dado pelo humor característico de João Ubaldo, "que ri da própria erudição e usa-a para se divertir, mas o elemento cômico se faz notar mesmo na modalidade escrachada".

Os dois escritores se encontraram em alguns momentos e estavam juntos na memorável passagem do baiano pela Festa Literária Internacional de Paraty, em 2011. Rodrigo Lacerda estava ali como escritor, pesquisador, editor e mediador, e foi tratado, em algumas vezes, com o carinho dedicado aos filhos dos amigos queridos. Foi uma das mesas mais comentada daquela edição da Flip e seu sucesso foi anunciado - foi a primeira a ter os ingressos esgotados.

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